segunda-feira, 28 de maio de 2012

Dessa pra melhor


- Filho, vem aqui. – fala o pai com uma voz de velório.
- Agora?
- É.
- Mas agora eu to assistindo.
- Depois você assiste.
- Mas depois não vai estar passando.
- Você assiste outra coisa.
- Mas eu não quero assistir outra coisa.
- Desliga essa televisão e vem aqui agora.
Ele desliga a TV e vai para o quarto, batendo o pé e levando o controle.
- Senta aqui.
- Não, pode falar. Eu fico em pé mesmo.
- Senta.
Ele senta.
- Você gosta da sua vó né.
- Sim. Apesar do cheiro dela, sim.
- É ela tinha aquele cheiro por que já estava meio velha.
- Bem velha!
- Bem velha. Mas você sabe que ela gostava muito de você.
- Sim eu sei. Ela sempre me dá dinheiro.
- Não só por isso.
- Não, dava presente também.
- Mas tem mais coisas.
- Tenis, roupas.
- Sim, sim. Ela gostava muito.
- Me leva no shopping.
- Já entendi, já entendi.
Silencio.
- Então, como eu disse, ela já estava meio velhinha.
- Bem velha.
- Bem velha! E precisava descansar.
- Ela não foi dormir no meu quarto né?
- Não, não foi.
- Ufa, a ultima vez que ela ficou lá meu quarto ficou com um cheiro estranho.
- Não, ela não foi dormir lá. Na verdade ela já não está mais entre nós.
- A mamãe colocou ela numa casa de velhos?
- Oi?
- Eu vi a mãe falando com a amiga dela que a vovó deveria estar numa casa de velhos, pelo menos parava de vir aqui encher o saco.
- Sua mãe falou isso.
- Falou.
- Filha da P... – Para ao ver que o filho esta prestando a atenção nele. – então, mas ela não foi pra um asilo.
- Casa de velhos.
- É. Ela não foi pra lá.
- Ela foi dessa pra melhor.
- Ah ela disse que quando fosse ia me levar.
- Ãhm? – arregala os olhos o pai.
- Por que ela jogava, no bingo e na mega-sena, falava que quando ganhasse ia sair dessa pra uma melhor. E ia me levar. A vovó é mentirosa.
- Ela disse que se ganhasse ia embora?
- Sim.
- Filha da P... – para de novo. – Não, mas ela não ganhou na mega-sena.
- Então o que aconteceu?
- Você sabe que um dia todos nós vamos morrer.
- Como o Totó?
- Como o Totó!
- Mas eu não quero morrer atropelado?
- Morrer atropelado?
- Você disse que eu ia morrer igual o Totó.
- Mas não vai.
- Ufa.
Silencio.
- Você e a mamãe também vão morrer?
- Também. Infelizmente sim, mas não agora.
- Quando?
- Quando o que?
- Quando que vocês vão morrer?
- Não sei. Mas vai demorar ainda.
- Mas e se você for atropelado igual o Totó?
- Eu não vou ser.
- Mas e se eu for?
- Mas eu não vou. O Totó foi idiota.
O filho fica em silencio.
- Não ele não foi idiota, idiota foi quem atropelou.
- A mamãe.
- Isso, a mamãe.
- A mamãe é uma idiota mesmo.
- Não fala isso perto dela.
- Ta, deixa aquela idiota.
Silencio.
- Então, como eu tava falando. Um dia todos nós vamos morrer.
- Só não sabe quando.
- É, não se sabe quando. Então, sua vó, morreu. – fala, abaixa a cabeça, escorre uma lagrima.
Silencio.
- Igual o Totó?
- Sim... – responde ainda de cabeça baixa.
- A mamãe é uma idiota mesmo, já atropelou o cachorro agora a vovó também.
O pai levanta a cabeça lentamente, enxuga os olhos, fica olhando para o filho, que fica em silencio olhando pra ele.
- Pode ir assistir televisão.
O filho levanta, sai correndo do quarto, pula no sofá e liga a televisão.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Poltrona errada


Dentro do ônibus de viagem sempre torcemos para que ninguém sente do nosso lado. Cada pessoa que passa reto, não senta na poltrona vazia, é uma comemoração interna. Mas raramente conseguimos viajar sem alguém do lado. E parece que a vida faz uma sacanagem, por que quanto mais você torce para não sentar alguém do seu lado, mais chata é a pessoa que senta.

Os dois passageiros estão em silencio. O homem na 33, a mulher na 34. Ela da uma olhada pra ele, ergue as sobrancelhas o cumprimentando, ele repete o movimento dela. Ela da um suspiro, é a deixa pra ele começar a ler o livro antes que ela comece a falar, tarde demais, ela começa.

- Eu não sei porque, mas consigo dormir no ônibus de viagem.
- Ah! – responde e marca, com o dedo, a pagina que vai começar a ler.
- É muito desconfortável.
- Pois é.
- Eu deito e pensou: hoje eu vou dormir a viagem inteira. Então da cinco minutos eu viro pra um lado, mais cinco, para o outro, mais cinco, para o outro. Eu fico me revirando e não consigo achar a posição correta.
- Hum...
- Eu admiro quem consegue.
- Eu também.
- Também não consegue?
- Também admiro.
- Ah.
Silencio. Ele abre o livro onde o dedo estava marcando.
- Sabe, acho que na verdade não tem uma posição correta pra dormir.
Ele da uma olhada pra ela, mas dessa vez mantém o livro aberto.
- Não sei como as pessoas conseguem.
- Nem eu.
- Olha aquele dali, o ônibus nem saiu da rodoviária e ele já está dormindo.
Assente como se concordasse. Volta a olhar para o livro.
- Por que eu não sou como ele?
“pois é, porque você não é?” Pensa ele, mas não fala.
Silencio. Ela fica observando o cara dormindo. ele aproveita que ela parou de falar e começa a ler.
- Sabe de uma coisa.
Dessa vez ele não se da o trabalho nem de tirar os olhos do livro.
- Sempre que eu viajo eu tenho a impressão que o banco dos outros deita muito mais do que o meu. – força uma tosse tentando acordar o passageiro que está dormindo. Todos olham para o banco onde eles estão, menos o homem que continua dormindo. Enfia a cara dentro do livro.


- Senhor esse é o meu lugar.
- Claro que não!
- É senhor, está aqui no bilhete 33.
- Pois é eu sei, está no meu também.
- Não tem como estar no teu.
- Está.
- Então pega o bilhete pra eu ver.
- Porque?
- Porque eu quero que o senhor prove que não está no meu lugar.
- Eu não tenho que te provar nada.
- Como não?
- Não tendo. E outra olha o tanto de banco vago que tem.
- Mas eu não quero esses bancos vagos. Eu quero o meu banco. E outra, e se eu sento no lugar de alguém e essa pessoa chega.
- Você sai.
- Então sai o senhor.
- Porque?
- Porque o senhor está no meu banco.
Silencio.
- Senhor?
- Oi?
- Faz favor?
- Depende o que?
Ela fica parada com a mão na cintura olhando pra ele.
- Esse é o meu lugar.
- Como seu lugar?
- O senhor está na poltrona 33, certo?
- Sim.
- E aqui no meu bilhete está escrito: poltrona 33. – mostra pra ele.
- Certo.
- Então logo o senhor está sentado na minha poltrona.
- Não estou. Estou na minha.
- Senhor.
- Cade o seu bilhete.
- Na minha bolsa.
- Cade a sua bolsa?
- Aí em cima.
- Então pega ela.
- Não.
- Por que não?
- Vai se eu levanto pra pegar e alguém senta no meu lugar?!
Silencio. Ela fica parada olhando pra ele. Então pega a bolsa que está no compartimento acima da cabeça dela e joga pra ele, que tira o bilhete e mostra pra ela.
- Viu, poltrona 33.
- Como assim?
- Viu!
Finalmente o motorista aparece para intervir.
- O que está acontecendo aqui?
- Ele está no meu lugar. – fala e entrega o bilhete para o motorista que confere.
- Não estou não. – diz ele.
- Senhor? – diz o motorista olhando com cara de reprovação.
- Caramba parece que ninguém aqui confia em mim mesmo. O que será que tem de errado comigo?
Saca o bilhete, entrega para o motorista, que observa em silencio.
- E aí diz pra ela como eu não estou na poltrona errada.
- É realmente ele não está na poltrona errada.
Ele abre um sorriso de comemoração. Ela se põe a questionar.
- Mas como...
- Ele está no ônibus errado.
O sorriso dele some da cara. Enquanto o dela aparece.
- O seu é aquele do lado que já saindo, se o senhor não correr vai perder.
Ele junta as coisas e sai rapidamente. Ela senta vitoriosa.


Ele ainda está com o livro aberto na mesma pagina. Ela ainda não parou de falar.
- Eu acho que deveriam lançar um Kama-sutra, com posições para dormir no ônibus de viagem.
Ele só balança a cabeça.
- Cometa-sutra, é um bom nome. Cometa-sutra.
Um homem chega perto da poltrona deles e para. Ela fica em silencio. O homem confere o bilhete, o numero, o bilhete o numero.
- O senhor está na minha poltrona.
- Não.
- Está sim. 33, essa é a minha poltrona. E dessa vez eu tenho certeza. – argumenta o homem que a poucos minutos estava no ônibus errado.
O homem saca o bilhete do bolso e confere, ele realmente está no errado, o seu é o 36. Então ele fecha o livro e se encaminha para a poltrona correta, dando graças a Deus por estar errado. O outro homem senta, dessa vez no lugar certo. Silencio. A mulher que está na poltrona do lado, solta um suspiro.

- Eu não sei porque, mas consigo dormir no ônibus de viagem.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Vim do futuro


Miltinho levanta no meio da madrugada pra ir no banheiro e tomar uma água. Quando acende a luz se depara com um homem sentado a mesa. Ele toma um susto.

- Aí meu Deus! – leva a mão a primeira coisa que consegue ver, uma raquete elétrica de matar mosquito.
- Fique onde você está.
O homem nem se mexe.
- Quem é você?
- Você!
- Não eu, você.
- Eu sou você!
- Como assim eu?
- Sou você mais velho.
- Bem mais velho.
Silencio.
- Então você sou eu?
- Sim, eu vim do futuro.
- Como?
- De ônibus.
Miltinho fica olhando abismado.
- Brincadeira, vim numa maquina do tempo.
- O que você veio fazer aqui?
- Vim te trazer uma mensagem.
- Por que não mandou um email?
- Eu mandei você não responde.
- Não recebi nada.
- Verificou o lixo eletrônico?
- Sim, alias eu recebi uma mensagem com o meu próprio email achei que era vírus.
- Não, era eu.
- Ah... Nunca se sabe né, hoje em dia ta difícil. Como está isso no futuro.
- Ta praticamente a mesma coisa.
- Quantos anos você está?
- 38.
- Caramba vou começar a me cuidar mais.
- E aí o como está minha vida? To rico? Casado? Tenho filhos? Me conta tudo.
- Não posso falar.
- Por que não?
- Por que se não pode altera tudo!
- Se não pode falar então o que está fazendo aqui?
- Vim trazer uma mensagem.
- Qual?
- Não entre naquele carro.
- Qual carro?
- Só posso falar isso?
- Como assim só pode falar isso? Eu entro em carros todos os dias!
- Agora é com você!
- Sim e você sou eu.
Silencio.
- Você gastou uma passagem do futuro até o passado pra dizer isso?
- Um dia você vai me agradecer.
Silencio.
- Se agradecer.
- É, pode ser que um dia sim, mas hoje eu to puto.
Miltinho do futuro levanta da mesa e vai se encaminhando para porta.
- Você não sabe nem os números da mega-sena?
- Não, você acha que se eu soubesse ia estar pobre, divorciado e cheio de dividas?!
Apaga a luz e sai.

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No canto do bar estão os últimos dois clientes, esse é um daqueles bares com a politica de só abaixar as portas depois que o ultimo cliente for embora.

- Poti.
Silencio.
- Poti.
Poti esta em silencio, olhando para a garrafa de cerveja que está no fim..
- Poti!
- Shiii!
- O que você está fazendo?
- Valorizando!
- O que?
- A cerveja. Aprendi a dar valor ao que me importa enquanto eu ainda tenho.
Assente com cabeça como se concordasse com ele.
- Cara se você pudesse voltar no tempo, pah!
- Mas eu posso.
- Como assim pode?
- Daqui seu relógio.
Puxa o braço dele, pega o relógio e volta os ponteiros.
- Pronto.
- Não cara, to falando sério.
- Eu também to! – ergue a mão para o garçom. – Garçom que horas são?
- Duas e meia da manhã. – responde o garçom, puto.
- Ele ainda está no horário antigo.
- Não, sério cara. Sério.
- Ta bom, vamo fala sério agora.
- Se você pudesse voltar no tempo, pra quando voltaria?
- Puxa essa pergunta é difícil hein, é hipotética, mas é difícil.
- Qualquer época, sem restrições.
- Só no passado? Não posso ir para o futuro?
- Não. Só voltar.
Silencio.
- Pra que época você voltaria.
- Para quando eu ainda era criança. Não tinha responsabilidade nenhuma. Minha maior responsabilidade era passar de ano, meu único trabalho era lavar a louça, e eu tinha o dia inteiro pra fazer isso.
- Verdade, bons tempos.
- E aí, pra quando você voltaria?
- Agora me deu saudades da infância também.
- Voltaria pra sua infância também?
- Não.
- Então pra quando voltaria?
- Pra quando está cerveja ainda estava cheia. – coloca o ultimo gole no copo e fica olhando para a garrafa com saudosismo.

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- Renato, desliga esse vídeo game e vai dormir por que amanhã você tem que acordar cedo.
- Mãe, amanhã eu não vou acordar cedo.
- Por que, não tem aula? Você não me mostrou nenhum bilhete. É feriado de que? Essas escolas de hoje em dia estão arrumando feriado onde não tem.
- Não é feriado nenhum.
- Reunião de pais?
- Não!
- Você foi suspenso Renato. Se você foi suspenso de novo eu juro que vou te bater. Alias eu não vou só te bater, eu vou te dar uma surra tão grande que eu vou entrar para o livro do guiness.
- Não mãe, eu não fui suspenso.
- Ah bom, por que eu não aguento mais ter que te bater!
Silencio.
- Agora vai dormir. – Fala e vai saindo do quarto. Então lembra que ele falou que não ia pra escola. – Pera aí, por que você não vai acordar cedo amanhã?
- Por que eu vou viajar.
- Viajar? Como assim viajar? Você pediu pra mim? Não, não pediu. Pediu pro seu pai? – tira a cabeça pra fora do quarto e grita. – Sergio o Renato pediu pra você pra ir viajar?
- Não. – vem um grito da sala.
- você não pediu pro seu pai também não. Que papo é esse de viajar?
- Eu vou!
- Que mané, ‘eu vou’, pra onde você pensa que vai.
- Vou viajar no tempo.
- Que papo é esse de viajar no tempo? Você ta fumando maconha? Se eu sonhar que voce está fumando maconha eu não sei o que eu faço. Alias eu sei, eu vou te dar uma surra.
- Não mãe.
- É esse vídeo game que está mexendo com a sua cabeça. É melhor você dar um tempo desse vídeo game. Ele ta fritando seu cérebro. Não sei por que seu pai te deu essa merda. – Coloca a cabeça pra fora do quarto e grita. – Sergio eu falei pra você não comprar esse vídeo game.
- Não! – grita o pai.
- Desliga esse vídeo game e vai dormir.
- Mas mãe, eu não vou pra aula amanhã. Eu vou viajar.
- A vai viajar, vai viajar sim. Não vai viajar não. Alias vai, vai viajar para o hospital se eu descobrir que você não foi pra escola. Agora desliga esse vídeo game. Se não eu vou viajar no tempo e fazer seu pai não comprar essa merda pra você.

domingo, 22 de abril de 2012

A boa ou a ruim


- Oi?
- Eu tenho duas noticias pra te dar.
- Agora?
- Sim.
- Domingo, oito horas da noite, logo na hora da reprise dos gols da rodada?
- É!
O pai revira os olhos para o filho.
- Ta bom, fala.
- Então, eu tenho uma noticia boa e um ruim.
- Tá.
Silencio. Os dois ficam se olhando.
- Qual você quer primeiro?
- Tanto faz!
- Como assim ‘tanto faz’, lógico que não ‘tanto faz!’.
- Filho o pai quer assistir.
- Eu sei, então escolhe.
- Por que escolher, você não vai ter que dar a noticia de um jeito ou de outro?
- Sim, mas tem que escolher uma, ou a ruim ou a boa.
- E se eu não escolher?
- Se você não escolher eu não vou falar nenhuma.
- Então ta bom.
Para de prestar atenção no filho e volta a assistir.
- Pai!
- Caramba fala logo de uma vez.
- A ruim ou a boa?
- Qualquer uma, fala!
- Escolhe.
- Ta bom, a boa, a boa.
- Então tá... a boa é que...
- Não, não. Espera! – interrompe.
- O que foi?
- Fala a ruim primeiro.
- Ta, a ruim...
- Não, espera, espera.
- Que foi cacete!
- Olha a boca.
- Desculpa!
- Fala a boa... Não, a ruim. A boa ou a ruim? Por que se você falar a boa primeiro e for realmente boa a ruim vai estragar com ela. Agora se você falar a ruim primeiro a boa pode amenizar o choque.
- Escolhe qualquer uma pai.
- Calma não é bem assim.
Silencio.
- Boa ou ruim... boa ou ruim.
- Pai.
- Ta bom, fala a boa primeiro.
- A boa é que eu não preciso ir pra aula amanhã.
- E a ruim?
- A ruim é por que eu fui expulso. – Fala e vai para o quarto.
- Ei... volta aqui! Não tem nenhuma boa aí.
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Domingo, fim da festa do filho mais novo, os pais estão jogados no sofá exaustos.
- Nem acredito que finalmente terminou.
- Nem eu.
- Não aguentava mais ver criança na minha frente.
- A ultima vez que eu vi tantas crianças juntas num mesmo lugar foi quando eu estava na creche.
- Estou na duvida se eram realmente criança ou gremilins. Uma hora eu derrubei refrigerante surgiu dezessete crianças sambando em cima dele.
Os dois estão olhando para o teto.
- O que é aquilo no teto?
- Não sei, a essa altura do campeonato eu já não consigo enxergar mais nada.
- São rastros.
- Rastros, de algum bicho?
- Não, rastros de crianças!
- De crianças, como?
- Não sei. Deve ter sido aquele pequeninho que tava vestido de homem aranha.
- Ainda bem que ele não tava vestido de tocha.
Os dois tentam rir, mas não tem força.
- A devíamos parar de reclamar. O importante é que foi uma grande festa pro Arthurzinho.
- Nem me fale, viu a cara dele a hora que chegou o Bob esponja?
- Vi. Tava muito feliz.
- Pena que o Bob esponja foi embora antes do combinado.
- É, mas temos que dar um desconto é mais difícil trabalhar com cinquenta crianças em cima de você.
- É.
Silencio.
- O importante é que o Arturzinho gostou.
- Amou.
- Sim, no fim das contas somos bons pais né.
- Sim. Estamos nos saindo bem.
Silencio.
- Onde será que está o Arturzinho?
- A ultima vez que eu vi ele tava com você.
- E que eu vi ele tava com você.
- Qual foi a ultima vez que você viu ele?
- Um pouco antes dele derrubar o Bob esponja.
- Então, eu também.
Silencio.
- ARTURZINHO. – grita o pai.
- CARLOS ARTHUR. – grita a mãe.
Silencio.
- Ralf vai ver onde ele está.
- Por que eu? Vai você. Você é a mãe. E outra eu não consigo levantar daqui.
- E o que é que tem que eu sou a mãe? Você é o pai. E eu também não consigo levantar.
Silencio.
- Ah, ele deve estar dormindo... depois do dia exausto que ele teve, é de se esperar.
- É, ele penou pra derrubar o Bob Esponja. Deve estar morto. Vamos deixar ele descansar.
Silencio.
- No fim das contas somos bons pais.
- Sim, somos.
Silencio.
- Quero ver como vamos limpar o teto.
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- Mais um domingo que se foi hein!
- Pois é!
- A semana passou voando!
- É...
- Já é quase fim do mês.
- Nem me diga.
- Daqui a pouco já é natal de novo e o que nós fizemos?
Silencio.
- Nada. Mais uma semana sem fazer nada, um mês, um ano.
Só assente com a cabeça.
- Todo ano faço promessas de prestar a atenção. Pra quando chegar o final do ano eu conseguir tirar um extrato positivo e avaliar tudo que eu fiz.
Silencio.
- E todo ano não faço nada disso. Sabe, eu to cansado.
- Eu também.
- Não é por que eu não trabalho, que eu não posso estar cansado.
- É.
- Não é por que eu não faço nada que eu não quero nada.
- Ih.
- Ainda da tempo de recuperar esse ano, se eu começar a me mexer agora posso terminar ele com um saldo positivo. O que você acha?
- Acho legal, mas tem que ser agora, pleno domingo, e nem passou os gols da rodada.
Silencio.
- Ta, amanhã então!
- Amanhã cedo!
- Porra, mas segunda feira cedo, ninguém merece.
- Ta bom, começamos depois do almoço.
- Depois do almoço.
- O que nós vamos almoçar amanhã.
- Hum, tem essa também, tenho que resolver isso.
- É, vamos resolver um problema de cada vez, primeiro vamos ver isso do almoço, depois resolvemos o resto.
- Ta, agora fica quieto porque vai começar o Fantastico.

- Pai, pai.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Você é muito cachorro

- Ei, o que é isso?
- O que?
- Essa roupa.
- O que é que tem? Ta muito chamativa?
- Claro!
- Caramba eu vou trocar então.
- Não é pra trocar, é pra tirar!
- Por quê?
- Por quê? Por quê?
- É, por quê?
- Por que você é um cachorro, cachorro não usa roupa.
- Desde quando você entende de moda?
- Não é moda. Cachorro não usa.
- E nem fala.
Silencio.
- Quem disse que cachorro não usa roupa?
- Olha em volta, ta vendo algum cachorro de roupa?
- Não. Mas isso não quer dizer que...
- Claro que quer dizer! – interrompe. – vai tirar isso.
- Mas foi a Fernanda que colocou... E outra, vestiu tão bem. – da uma volta.
- Eu não vou sair com você vestido assim!
- E eu não vou sair com você pelado.
- Oi?
- Já parou pra pensar que o errado é você, por estar pelado.
- Não acredito que estou ouvindo uma coisa desta.
- É verdade.
- Ah, eu não sou obrigado. Vou embora que eu tenho mais o que fazer.
- Vai mesmo, tomara que a carrocinha te pegue e te prenda por atentado ao pudor.

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- Nossa não dormi direito a noite.
- Por que?
- Tem um guardinha novo na minha rua.
- Ih...
- Aí quando eu to quase pegando no sono ele passa apitando, então eu sou obrigado a ir latir pra ele.
- Já tentou esquecer ele.
- Como assim?
- Não pensar nele como um adversário.
- Não tem como.
- Claro que tem.
- Como.
- Tem que desapegar. Eu já não lato mais pra guardinha, lixeiro, carteiro...
- Carteiro? – interrompe. – não acredito que consegue ficar sem latir para o carteiro.
- Consigo.
- Me ensina isso aí. Não aguento mais, qualquer barulhinho eu levanto e vou, é mais forte do que eu.
- Você tem que relaxar. Meditar.
- Meditar?
- É. Sentar, fechar os olhos e relaxar.
- Se eu fechar os olhos eu durmo.
- Não pode dormir. Tem que ficar acordado, mas com os olhos fechados.
Os dois sentam e fecham os olhos.
- Só isso?
- Mais ou menos. Aí você tem que limpar sua mente, esquecer tudo.
- Sem dormir?
- Sem dormir!
- Ah não tem como.
- Você quer parar com isso ou não.
- Sim.
- Então faz o que eu to falando.
- Desculpa.
Silencio.
- E agora?
- Agora fica quieto.
Silencio.
De longe escutasse o barulho do carteiro.
- Relaxa. Mantem os olhos fechados. Esquece de t...
Ele sai correndo latindo para o carteiro.
- Desculpa, mas o carteiro já é demais.

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- Acho que não da mais pra gente ficar junto.
- Por quê?
- Por que você é muito cachorro.
- Obrigado
- Isso não é um elogio.
- Ah não?
- Não.
- Então o que quer dizer?
- Quer dizer que você é muito cachorro.
- Sim, disso eu sei.
- Ah então você concorda?
- Que eu sou um cachorro sim.
- Não, não é isso que eu to falando.
- Não to entendendo.
- To querendo dizer que você é um cachorro muito galinha.
- Muito galinha?
- É, um cachorro metido a garanhão.
- Pera aí, eu sou muito cachorro, galinha ou garanhão?
- Os três.
- Não to conseguindo entender.
- Você é muito mulherengo, isso que eu to querendo dizer, quando digo que é muito cachorro.
- Mulherengo, mas eu gosto de cachorra.
- Por isso mesmo.
- O que?
- Por que não pode ver uma cachorrinha e já vai logo cheirando ela.
- Ah é isso.
- Sim, é isso.
- Não, mas eu não faço nada demais.
- Não, não faz.
- Não, eu só converso.
- Sério gatinha.
- Nem venha com esse gatinha pra cima de mim. – vai saindo.
- Ei, desculpa, eu não vou mais ser tão cachorro!

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- Cara, você é muito puxa saco.
- Ãhm?
- Você é muito puxa saco.
- Como assim?
- Os mima demais.
- Nada a ver.
- Ah não?
- Não!
- Então por que ta plantado ai na porta.
- To esperando o Mai... – para no meio.
- Viu.
- Ah larga da minha pata.
- Você acha que ele está dentro do carro pensando, “nossa o Tob está me esperando”.
Silencio.
- Tem que relaxar cara. Não pode correr atrás das borboletas tem que cuidar do jardim pra que elas venham atrás de você.
- Falou o cara que não pode ver um mosquito que já sai pulando igual um louco.
- Não, você não entendeu o que eu quis dizer.
- Tem que deixar eles virem atrás de você.
- Você fala isso por é um egoísta, não passa de um gato egoísta.
- Eles quem vem fazer carinho em mim e não é ao contrario.
Silencio.
- Tudo bem, se quer ficar plantado aí boa sorte, mas eles foram viajar.
- Claro que não.
- To falando.
- Como você sabe.
- Ouvi eles dizendo, não aguenta mais você sufocando eles.
- Sério que eles disseram isso?
- Não, claro que não.
- Ah me esquece. – volta a vigiar a porta.