terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Adeus ano velho


- Agora sim as coisas vão andar.
- Por que agora?
- Porque é um novo ano, novas vibrações, novas atitudes, novas promessas.
- Mas só mudou o dia, é como se você tivesse dormido e acordado, normalmente. Só trocou o calendário. O que é pior porque tem que ficar rasurando a data até se acostumar.
- Nossa, mas entra ano, sai ano e você continua pessimista.
- Pessimista? Só por que eu falei a verdade?
- A verdade, nada.
- A verdade sim.
- Mas não é o que ele é, mas sim o que representa.
- E o que representa?
- Representa uma nova era, o fim de um ciclo, um novo começo, essas coisas.
- Mas precisa esperar 365 dias para isso.
- Sim.
- Por quê?
- Pra pegar o calendário cheio.

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Os dois mendigos estão sentados no meio fio que divide o calção com a praia, enquanto varias pessoas passam vestidas de branco. Eles bebem, um passa a garrafa de champanhe para o outro.
- Então é isso.
- É.
- Um novo ano, vida nova.
- É o que dizem.
Silencio. Pega a garrafa, da um gole, algumas pessoas passam por eles, desejam boas entradas.
- Fez alguma simpatia?
- Não acredito em simpatia.
- Eu também não, mas por via das duvidas eu pulei as ondinhas, comi uva e coloquei as sementes na carteira.
- Que carteira?
- Uma que eu achei.
- Achou?
- Peguei.
Devolve a garrafa.
- E ai, qual suas resoluções para esse novo ano.
- Não cheguei a fazer.
- Como não chegou a fazer, tem que fazer, um novo ano se inicia tem que fazer planos.
- Olha, eu virei mendigo justamente pra não precisar fazer planos. Nem cumprir promessas.
Fala e bebe. Mas algumas pessoas passam. Dão outra garrafa de champanhe pela metade pra eles.
- Isso é uma das melhores coisas do ano novo, ganhar bebida chique sem precisar pedir.
Silencio. Agora cada um fica com uma garrafa. Bebe.
- Quais as suas resoluções para esse novo ano?
- Pensei que você não ia perguntar.
Saca um papel todo sujo e amassado do bolso.
- O que é isso?
- Minha lista de resoluções.
Ele olha. Balança a cabeça negativamente e bebe.
- Não arrumar um emprego. Ganhar mais dinheiro. Beber mais. Fumar mais. Engordar. Comer mais. Não fazer nada. Comprar um carro.
- Comprar um carro?
- É.
- Mas você é um mendigo, pra que quer um carro?
- Imagina a cara dos outros quando eu aparecer com um carro?
Balança a cabeça mais uma vez. Bebe. O outro amassa a listinha e guarda no bolso.
- A única coisa que eu faço é: passar de branco. Todo ano eu tenho que passar de branco.
- Mas esse ano sua roupa não é branca.
- Não mais, há três anos era.

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Os dois estão sozinhos em casa depois da virada. Ele está sentado de frente para a TV assistindo a comemoração que acontece nos quatro cantos do país e é transmitida em tempo real. Ela está sentada na mesa conferindo a lista de simpatias.
- Comi a lentilha, as três uvas, a romã, Ok. Guardei as sementes na carteira junto com o louro, a arruda e o cominho.
- O que é isso? Você temperou a carteira?
Ele fala tirando sarro, sem tirar os olhos da TV. Ela só olha para ele bravo.
- Sem graça.
Silencio. Ela volta a conferir a lista.
- Dei três pulinhos com o pé direito, sim. Três pulinhos com a taça sem deixar cair nenhuma gosta depois joguei o conteúdo fora, sim. Três pulinhos em cima da cadeira. Doze pulos fazendo meus pedidos. Coloquei o dinheiro no sapato. Em todos os bolso. Dei dinheiro de boas entradas, também. Passei de branco pra atrair paz, amarelo pra dinheiro, vermelho paixão. Mas sinto que está faltando alguma coisa.
Silencio.
- Me ajuda Adalberto.
- Amor, se depois de fazer tudo isso de simpatia você ainda precisa de ajuda é porque a situação ta feia mesmo.
- Não brinca Adalberto, eu to esquecendo alguma coisa.
- Devia ter feito uma simpatia para memória.
- Não brinca Adalberto, não brinca que eu to fazendo isso por nós.
- Por nós? Eu nem acredito nessas besteiras.
- Besteiras não, respeita. Tudo que nós temos é graças a essas “besteiras” que eu faço todos os anos.
- E eu pensando que era por causa do meu trabalho.
- Mas você só tem seu trabalho porque eu pedi numa simpatia do réveillon de 99.
- Então já ta na hora de você fazer uma nova pra eu conseguir um emprego melhor.
- Fica brincando fica. Brinca. Lembra do ano que eu não fiz como foi ruim?
- Mas esse ano que passou você fez e não foi assim tão bom.
Ela só olha feio. Ele volta a assistir rindo.
- Falta alguma coisa. O que é?
Silencio. Ele levanta.
- Vou ir dormir, vamos.
- Já vou.
Ele da de ombros e vai para o quarto. Quando ele está começando a cochilar ela abre a porta com tudo.
- Lembrei o que faltou.
- Oi?
- A simpatia que faltou. Levanta.
- O que?
- Levanta que eu lembrei a simpatia que faltou.
- E porque eu tenho que levantar?
- Porque você tem que ir junto comigo.
- Onde?
- Na praia. Esqueci de pular as ondinhas.
- Mas amor, já são cinco da manhã. Não funciona mais.
- Claro que funciona, eu atraso meu relógio.
- Eu não vou levantar.
- Vamos comigo Adalberto.
- Não. Eu não saio dessa cama mais nem com simpatia.
- Ah não?
- Não.
- Ta ok, então eu vou aproveitar pra fazer uma simpatia pra arrumar um novo marido.
Ela fala e sai, batendo o pé.

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Meia noite de réveillon, os três estão na beira do mar.
- E ai, prontos?
- Quantas ondinhas são mesmo?
- Três.
- Não são sete.
- Ué, eu achei que eram doze.
Antes que a primeira onda chegue aos pés deles, eles voltam para areia.
- E ai, quantas vão ser?
- Eu pulo todo ano sete.
- Então não são sete.
- Ei.
- É, ele tem razão.
- Mas esse ano passou foi bom.
- Mas você não passou a virada na praia.
- Aé.
- Então são três.
- Não pode ser três.
- Por quê?
- Porque três é muito pouco. Não faz sentido.
- Ah, e doze faz?
- Sim, equivale aos meses do ano.
- Se for assim três equivale uma para cada quatro meses.
- Nada a ver.
- Tudo a ver.
- Gente, temos que resolver isso antes do próximo réveillon.
- Vamos perguntar. Quantas ondas são?
- Quinze.
- Quinze?
- São nove. – fala a pessoa do outro lado.
- Lógico que não, são cinco. – outro se intromete.
Começa uma discussão na praia.
- Quer saber não vamos pular ondinha nenhuma.
Os três concordam e vão se encaminhando para fora da praia.
- Verdade. Não serve pra nada, só pra molhar a barra da calça nova e branca e termos que ir embora mais cedo. Vamos fazer a simpatia das três uvas.
- Mas não são sete?
- Lá em casa nós sempre comemos doze.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Então é Natal

Ele está sentado, na mesa da cozinha, com varias contas, papéis, o notebook aberto com alguns nomes. A mulher entra na cozinha, vai até a geladeira.

- Amor, esse ano eu não vou comprar presentes pra ninguém.
- Como assim? – continua com a porta da geladeira aberta procurando algo – Você vai fazer os seus próprios presentes? Tipo presentes artesanais, capinha para travesseiro, missanguinha.
- Não.
- Que bom isso é brega demais. Vai fazer o que então? Desenhar as pessoas? Tipo caricaturas. Não sabia que você desenhava.
- Mas eu não desenho.
- Ah bom, porque eu não gosto de caricatura, só pegam nossos defeitos, coisa chata.
- Não vou fazer desenho. Não vou dar nada.
- Como assim não vai dar nada?
- Nada.
- Nem pra sua mãe?
- Nem.
- Nem para o seu pai?
- Nem.
- Nem pra mim?
- Nem.
- Pera aí, também não é bem assim.
- É sim, não vou mais colaborar para um mundo consumista.
- Mas não precisa comprar presente para os consumistas, compra só para os conhecidos.
- Você entendeu...
- Não.
Silencio.
- Quero resgatar o verdadeiro motivo de comemorarmos o natal, que é...
- Dar e ganhar presentes.
- Não!
- Só dar?
Silencio.
- Só ganhar?
Silencio.
- A ceia?
- Não, não. é o aniversário de Jesus. Aquele que deu a vida por nós. E pra quê?
- Pra termos um feriado? – resmunga.
- Pra comemorarmos gastando, esbanjando, dando presentes, se importando só com o bem material. Quando na verdade deveríamos nos importar com o que a data representa.
Silencio
- O décimo terceiro não deu pra nada né?
Silencio.
- Não.
- Eu peço o cartão do meu pai emprestado.

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- Para de correr menino, vai sujar sua roupa nova.
- Ué, se eu me sujar eu troco de roupa.
- Mas essa é única nova que você tem. Então para de correr.
- Ah, então eu vou ir trocar de roupa agora.
Vai ir para o quarto.
- Não. Fica com essa.
- Por que eu tenho que me arrumar pra ficar em casa?
- Por que é natal.
- E o que é que tem?
- Que é Natal. O aniversário de Jesus. Não quer ficar arrumadinho para o aniversário dele?
- Ele vai demorar pra chegar.
- Ele não vai vir.
- Então? Eu vou trocar de roupa.
- Não. Não quer ficar bonito para o papai noel.
- Mas eu não vou estar dormindo?
- Vai.
- Então... Vou ir trocar de roupa.
- Não.
- Mas mãe, eu não posso fazer nada, se não me sujo.
- Então não se suje. Fica quietinho.
- Que droga!
- Miltinho! Olha a boca.
- Que aniversário mais chato.

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Depois da ceia de natal, todos os adultos foram embora, só restaram os dois, os anfitriões, jogados no sofá, acabados. Não podiam ir dormir na cama porque as crianças, três, estavam na cama do casal. Então ficaram com medo de acorda-las e elas não quererem dormir mais, retomarem a festa, e porque a cama das crianças estava ocupada por outras crianças deixadas por pais que tomaram muita cidra e esqueceram os filhos.

- Ano que vem não vamos fazer a ceia aqui em casa, pelo amor de Deus.
- Mas a ideia foi sua.
- Minha?
- Sim. Não lembra, no churrasco do Nunes?
- Churrasco do Nunes?
- É, no mínimo já tinha bebido. Veio todo animado falando que esse ano ia mostrar como se faz uma ceia. Que ia deixar Jesus orgulhoso.
- Não, não. Você que disse que ia fazer!
- Eu disse?
- Sim. Você.
- Quando?
- Quando estávamos voltando da sua mãe.
- Eu?
- Sim, a senhora. Não lembra? Veio da casa da sua mãe falando que era capaz de fazer uma ceia. Qualquer um faz uma ceia, é só fazer um peru e colocar frutas cristalizadas e uva passa em tudo.
- Não lembro disso.
- Por isso que eu to refrescando sua memória.
- Qualquer um faz uma ceia.
- Exatamente. Nada mais de ceia.
- Nunca mais.
Silencio. Ambos dão uma pescada. Ela pergunta sem se dar o trabalho de abrir os olhos.
- E o peru?
- Ta cansado também. Desculpa amor, mas eu hoje eu não aguento, eu sei que faz um tempo que não fazemos, mas eu to morto.
- Do que você está falando?
- Do que você está falando?
- Do peru que sobrou.
- Ah... Eu também.
Silencio.
- E ai, o que vamos fazer?
- Você não deu para as visitas levar embora?
- Sim, mas mesmo assim sobrou. Você trouxe três perus? Não sei pra que tanto peru.
- Você que pediu.
- Não, falei que queria o suficiente pra mamãe não reclamar.
- Então. Era três pelo preço de dois.
Silencio. Fecha os olhos, pela primeira vez em quase 24 horas.
- E ai?
- O que?
- O que vamos fazer com o peru?
- Vamos improvisar.
- Improvisar?
- Sim, almoçamos peru amanhã, sanduiche de peru no café da tarde, peru desfiado a noite, com batata no outro dia e assim até acabar.
- Mas eu não gosto.
- Tarde demais.
Silencio.
- Já sei. Quando os pais daquelas crianças que estão no quarto buscar elas, fazemos um acordo, só devolvemos se levarem mais peru. Caso o contrario ficamos com ela.
- Isso.
Vão se beijar, mas dormem antes que suas bocas se encontrem.

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A ceia está acontecendo lá fora. Linda. Como deve ser. E na cozinha algo não parece ter saído como o planejado.

10 minutos para meia noite
- Feliz Natal. – entra o tio velho na cozinha.
- Mas ainda não é.
- Claro que é. No meu relógio já é. Feliz Natal.
- Tio Carlos você tem que arrumar esse relógio.
- Ou vocês arrumar o de vocês.
- Ainda não é meia noite, não estão soltando fogos.
- Lógico é natal, não ano novo. Feliz Natal.
- Ainda não é.
- Então tá, depois não vem reclamar que eu não dei feliz natal.
Um bando com cinco crianças entram na cozinha, organizados, fazem um motim e clamam pelo papai Noel. “queremos o papei Noel, queremos o papai noel”.
- O Papai Noel só chega meia noite filho.
- Mas já é.
- Tio!
“Queremos o papai Noel! Queremos o papai Noel!”
- Milton cade o teu irmão.
- Ele foi buscar o gorro que ficou em cima da cama dele.
- Isso faz mais de uma hora Milton.
- Ele já está chegando.
Finalmente o papai Noel entra pela porta bêbado, fumando um cigarro e com a barba na nuca.
- Feliz Natal!
- Rodrigo o que está acontecendo?
As crianças tomam um susto e saem correndo cada um para um lado.
- Feliz natal. – o tio do relógio atrasado vai cumprimentar o papai noel.
- Ainda não é!
- Depois eu não vou dar.
- Milton olha seu irmão.
- Rodrigo.
- O que?
- Você está bêbado.
- É que eu tava vestido de papai Noel, então fui parando em todas as casas, você não tem noção como papai Noel é bem tratado. Nunca fui bem tratado. – Começa a chorar.
- Milton recompõe seu irmão.
- Rodrigo.
- Eu quero ser papai Noel para o resto da vida.
- Mas eles só trabalham em dezembro.
- Melhor ainda. Trabalha um mês, folga onze.
- Poh Rodrigo bêbado, só precisava que você fosse o Noel das crianças você faz isso. Assim você acaba com o meu natal.
- Pera aí amor, também não é assim.
- É assim, sim.
- Ah Noemia, você colocou frutas cristalizadas em tudo, você quem acabou com o natal.
Ela também começa a chorar.
As crianças entram chorando na cozinha. Os curiosos que estavam lá fora entram pra saber o que está acontecendo. Flagram o papei Noel com a barba na nuca, fumando e chorando. A anfitriã chorando com o pudim de ameixas na mão e o tio emburrado.
- O que aconteceu?
Antes que o Milton comece a dar explicações alguém no meio grita: “MEIA NOITE”.
Todos começam a se abraçar. Desejar boas festas. Felicidades. Esquecem da briga. A mulher e o papai Noel continuam chorando, mas agora é choro de alegria. Dizendo que se gostam. O tio está no canto emburrado. Balançando a cabeça negativamente, uma criança vai até ele, abre os braços.
- Feliz Natal tio!
Ele retribui, abraça a criança.
- Feliz Natal. Mas saiba que já faz dez minutos que já é natal.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Fim do mundo


A mãe está tentando assistir a novela.
- Mãe.
Silencio.
- Mãe!
Silencio.
- Manhê.
- Oi, a mãe ta vendo a novela.
- Onde nós vamos passar o fim do mundo.
- Ãhm?
- O fim do mundo. Amanhã. Onde vamos passar? Não vai ser na casa da vovó né.
- Que fim do mundo filho? Ta doido. Amanhã nós vamos ficar em casa. fim do mês, sem dinheiro.
- Ah manhê! Mas, eu não quero passar o fim do mundo em casa.
- Para com esse negócio de fim do mundo. O mundo não vai acabar. Agora deixa a mamãe assistir.
Silencio.
- Vai sim.
- Vai sim o que?
- Acabar.
- Quem disse?
- Meus amigos falaram na escola.
- É mentira filho.
- Ta na internet.
- O que eu falei sobre ficar vendo besteiras na internet?
- A professora também falou.
- Sua professora?
- É, depois de jogar o apagador no Dieguinho, rasgar toda a roupa e sair gritando: “QUE SE DANE, O MUNDO VAI ACABAR MESMO!”.
- Ela fez isso?
- Sim.
- Meu Deus. Isso é o fim do mundo.
- Viu!
Silencio. A mãe volta a prestar a atenção na novela.
- E ai, vamos para o shopping?
- Fazer o que no shopping?
- Passar o fim do mundo.
- Meu Deus filho, para com esse negócio de fim do mundo. O mundo não vai acabar.
- Vai sim.
- Não vai.
- Vai. Vamos passar no shopping.
- Não vamos a lugar nenhum.
- Ah, vamos!
- Não.
- Vamos!
- Não vamos a lugar nenhum. Vamos passar o fim do mundo em casa. Juntos. Assistindo TV. Agora deixa eu assistir minha novela.

O menino fica emburrada. Sai da sala batendo o pé. Vai até o quarto, o pai também está assistindo TV.
- Pai.
Silencio.
- Pai.
Silencio.
- Paiê.
- Oi filho.
- Vamos passar o fim do mundo no shopping?
- Pede pra sua mãe.

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Dois caras num bar
- E ai, o que você acha desse negócio do fim do mundo?
- Acho bom.
- Acha bom?
- Não acredito, mas acho bom.
- Como assim: não acredita, mas acha bom?
- Não acredito que vá acabar, mas seria bom se acabasse.
- Por quê?
- Porque eu acho que já deu o que tinha que dar.
- Também não é bem assim. Você está sendo radical.
- Não. Acho que tinha que acabar mesmo. Começar outro do zero. Dessa vez sem deixar as coisas chegarem aonde chegou.
- credo, que pessimista.
- Não é pessimista, é realista. Realista. – fala e bebe.
Silencio.
- Sabe que eu to com um pouco de medo que acabe mesmo.
- Não se preocupe que não vai.
- Como você pode ter tanta certeza? Vai que acaba.
- Não vai.
- Como você sabe?
- Vaso ruim não quebra.
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Dois profetas conversando.
- Será que dessa vez vai?
- Olha parece que sim hein. Ta rolando um bafafá no meio, que os Maias não erravam uma. Eles eram bons.
- Será?
- É o que tão falando. Os caras eram bons. Acertavam desde previsões de desastres, até qual seria o sexo dos bebês. Naquela época não tinha esse negócio de ultrassonografia.
- Não sei não. Segundo as minhas previsões, não vai acabar não.
- Suas previsões?
- É.
- Você nunca acertou nada.
- Nem você.
- Eu sabia que você ia falar isso.
- Eu também sabia, que você ia falar que sabia que eu ia falar.
Silencio.
- Na verdade eu não sabia.
- Eu também não.
- somos duas farsas.
Silencio.
- Eu nunca acertei uma previsão.
- Nem eu.
- Queria muito acertar uma previsão. De morte, de desastre, nem que fosse de jogo. Uminha que fosse.
- De jogo eu já acertei.
- Jogo importante?
- Jogo do bicho.
Silencio.
- Na verdade, meu sonho mesmo é acertar uma previsão de um apocalipse.
- O sonho de todos nós é. De todos nós.
Silencio.
- Só teria uma coisa ruim em acertar.
- O quê?
- Não ia ter como dizer: viu como eu estava certo.
- Verdade.
Silencio.
- Será que chove?
Olha para fora.
- Não sei.
Volta a beber.

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No paraíso, após o fim do mundo.
- Sejam todos bem vindos. Vão se acomodando. Bem vindos. Não reparem a bagunça.
- O que aconteceu?
- Como assim o que aconteceu?
- Onde estou?
- Pera aí, você quer saber o que aconteceu, ou onde você está?
- Os dois.
- O mundo acabou e você está no paraíso.
Silencio.
- Muito engraçado.
- Obrigado. – passa algumas pessoas. – sejam bem vindos.
- Quem é essa gente toda.
- Seus irmãos.
- Meus irmão?
- Meus hospedes.
- Seus hospedes?
Silencio.
Chegam mais pessoas.
- Fica a vontade. Desculpa os transtornos.
- Alguém pode me explicar o que está acontecendo. – grita.
- O mundo acabou.
- Que papo é esse de o mundo acabou?
- Acabou. Não estava previsto pra acabar? Então, acabou.
- Mas eu achei que era brincadeira.
- Achou errado.
- A previsão nunca acerta.
- Dessa vez tava certa.
- Mas eu não me despedi de ninguém.
- Não se preocupe, eles estão por aqui. Em algum lugar. Ta meio bagunçado, mas devem estar por ai. Procura aí.
- Mas eu não fiz tudo o que eu queria.
- Não fez por que não quis. Teve tempo. Isso ta sendo avisado faz tempo.
- Mas eu ia saber que realmente ia acabar.
- É, ai já foge da minha alçada.
- Eu quero falar com o seu superior.
- Meu superior?
- É.
- Ele está ocupado.
- Eu espero.
- Ele pode demorar.
- Não tem problema. Tenho toda a eternidade.
- Mas o que você quer com ele.
- Quero uma satisfação.
- como assim.
- Como ele acaba com o mundo assim sem mais nem menos. E os meus direitos.
Senta no chão, obstinado a ficar nem que for toda a eternidade pra falar com Deus.

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Dois homens estão dormindo de conchinha. Homens mesmo. Estilo neandertal. Peludos. Barba por fazer. O que está atrás começa a acordar. Faz carinho na mão que está por cima do ombro. Sem abrir os olhos. O que está atrás retribui o carinho. Passa a barba no cangote do da frente. Que estranha, já que pinicou. Vira lentamente. Abrem os olhos ao mesmo tempo.

- Ai CACETE! Não acabou. – gritam em uníssono.

Noite anterior.

Os dois estão na cozinha. Na mesa varias garrafas vazias. Estão completamente bêbados.
- Então é isso. Plena noite de fim do mundo jogado as traças.
- É isso.
- Eu que queria tanto casar. Constituir família. Vou morrer sozinho.
- Opa, sozinho não.
- Sozinho é modo de dizer. Sozinho sem mulher.
- Mulher. Pra que mulher. Eu já tive de todos os tipos e nenhuma me satisfez.
- Falou ai, Martinho da Vila.
- Não, é verdade. Nunca consegui gostar de nenhuma, ter uma amizade, um laço sabe. Tipo como o nosso.
- Sei.
- Eu te considero pra caramba.
- Não, mas do que eu considero você.
Os dois se abraçam.
- Então, é isso. Mas estou feliz de passar meu ultimo dia com você.
- Eu também.
Silencio. Bebem mais.
- Falta quanto ai?
- 1 hora.
- Falta pouco.
- Falta.
Silencio.
- Você já experimentou de tudo já?
- De tudo.
- Tudo?
- Tudo!
Silencio.
- Cara, essa é a ultima vez que vamos nos ver.
- Não, vamos nos encontrar do outro lado.
- Claro, claro, mas eu digo em vida. Em vida é a ultima vez.
- Em vida sim.
- Já pensou se a gente... Como eu posso dizer isso...
- A gente?
- Não, besteira minha.
Bebe e fica em silencio.
- Fala.
- Não, esquece.
- Falta menos de uma hora para o fim do mundo. Nada mais importa. Fala.
- É besteira.
- Fala!
- Você sabe que eu te considero.
- Não mais que eu.
- Ta, não mais. Então, que tal se nós dois, dormíssemos juntos?
- Oi?
- Falei que era besteira. Esquece.
- Dormir juntos.
- Eu to bêbado.
- Dois homens, adultos, dormindo juntos.
- Não sei o que estou falando.
- Eu sou macho. Macho. Já trai minha mulher e os cambau
- Eu sei. Eu sei.
- Ai você vem falar uma coisa dessa.
- Já falei pra você esquecer.
- Cê ta louco? Dormir com um homem.
- Esquece.
- Imagina o que os outros iriam falar. Eu, o mais macho de todos. Um exemplo.
Silencio. Continuam bebendo.
- Quanto tempo falta?
- 40 minutos.
Silencio.
- O mundo vai acabar mesmo né.
- Pelo que estão falando sim.
Silencio.
- Não vai ficar nada.
- Nadinha.
Silencio.
- Você sabe que eu te considero né?
- Sei, sei sim.
Levanta. Mata o ultimo gole do copo. E vai saindo.
- Onde você vai?
- Vamos para o quarto, aproveitar os últimos minutos.