quinta-feira, 1 de março de 2012

pai de primeira viagem

Pioco estava no bar quando recebeu a mensagem da mulher avisando que estava gravida.
- Caramba! – fala ele calando todos na mesa.
- O que foi?
- Aconteceu alguma coisa?
Silencio.
- Minha mulher ta gravida!
- O que?
- A Francis, acabou de me mandar uma mensagem, dizendo que ta gravida.
- Sério?
- Sim.
- E ela já sabe quem é o pai?
Todos riem.
- Não acredito.
Cria-se um murmúrio na mesa.
- Gente eu vou ser pai.
- Um brinde ao novo pai da mesa.
Todos erguem os copos.
- Afinal de contas pai é aquele que cria.
Todos riem novamente. Um dos amigos que estava no banheiro chega a mesa.
- O que está acontecendo?
- O Pioco vai ser pai!
- Caraca, parabéns. Já contou pra Francis?
Todos caem no riso novamente.
- Pra comemorar o novo pai da mesa, vou pedir uma rodada na minha conta!
“opa, aí é bonito” – se ouve em todos os cantos da mesa.
- Pra mim, me ve uma água.
Todos ficam sérios.
- Oi?
- Sabe como é agora vou ser pai, não posso ficar bebendo por aí.
- Mas não vai tomar nem uma pra comemorar?
- Não, já bebi demais nessa vida. Tenho que começar a me cuidar, agora não sou só eu no mundo. Tem uma vida que depende de mim.
- Falou bonito, hein.
Todos bebem, felizes. Chega outra mensagem no celular. Ele abre: Era brincadeira, primeiro de abril, já passou de meia noite.
Ele fica sério. Pega um copo. Enche de cerveja e começa a beber, todos em volta estranham.
- Aconteceu alguma coisa?
- Disse que não ia beber...
- É que eu tava pensando aqui, como eu vou ser pai sendo que eu sou estéril.
Todos ficam sérios na mesa. Parece que até a musica de fundo para de tocar.
- Brincadeira, eu não sou não, primeiro de abril!
Soltando a tensão que tinha ficado depois da noticia, todos na mesa respiram alegres novamente, até a musica volta a tocar. E Pioco continua bebendo em silencio. Com o gosto da sensação boa que teve a pouco pensando que realmente seria pai.

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- Eu quero só ver se ele vai falar primeiro papai ou mamãe, o que você acha que ele vai falar?
Silencio.
- Amor!
Silencio.
- Amor!
Silencio.
- Claudio!
- Oi... – acorda dando um pulo – vai ganhar, vai ganhar, pega a bolsa que eu pego a barriga!
- Não vou ganhar, calma, eu to só de cinco meses.
- Ah é... – deita-se – Ta com desejo de comer alguma coisa?
- Não!
- Tem certeza? Aquele sorvete de picanha, que você me fez ir comprar ontem de madrugada, ainda está inteiro na geladeira.
- Não quero não.
- Nem o churrasco com calda de chocolate? Lembra que você me fez comprar quando tava passando o jogo e quando eu cheguei com ele disse que a vontade tinha passado?
- Lembro, mas não quero não.
- E a vitamina de banana com cebola?
- Me deixou enjoada.
- Isso que você nem provou.
- É...
Silencio. Ele volta a cochilar.
- Amor!
- Que foi?
- O que será que nosso filho vai ser quando crescer.
- Não tenho a mínima idéia.
- Nossa Claudio, você não ta nenhum pouco empolgado com essa criança né?! Se quiser pode ir embora que eu me viro sozinha, não preciso de um pai pra criar ele.
Silencio.
- Claudio, você ta dormindo?
- Não!
- Nossa não da pra contar com você mesmo, to aqui toda preocupada com o futuro da criança e você aí dormindo. Mas deixe, quando ela entender das coisas eu vou contar tudo...
Silencio. Um suspiro longo ao fundo.
- Claudio! – grita.
Claudio da um pulo da cama.
- Estourou a bolsa, corre, quer dizer não corre que é pior, deixa que eu corro. – e saiu correndo pela porta.

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- E quando ela começar a falar.
- Espera aí. – a interrompe. – Quem disse que vai ser ela?
- Eu!
- Como assim você?
- Ué, eu sou a mãe, sexto sentido de mãe.
- É, mas você pode estar enganada, pode ser ele.
- Não pode não.
- Por que não?
- Por que a minha barriga ta muito pontuda.
- E o que é que tem?
- Barriga pontuda é sinal de que é uma menina.
- Por que?
- Não sei, todo mundo diz.
- Todo mundo quem?
- Aí todo mundo Ariosto. Todo mundo!
- E se todo mundo tiver enganado.
- Como assim todo mundo tiver enganado, não tem como todo mundo estar enganado. Se todo mundo falou que barriga pontuda é sinal que é uma menina, é por que todo mundo ta certo.
- Eu não sei, prefiro, não acreditar em todo mundo.
- Ariosto, você não quer uma menina?
- Não é que eu não quero uma menina, é que sei lá nunca criei uma menina.
- E por acaso um menino você já criou?
- Já!
- Já Ariosto, você tem um filho por fora...
- Não, não... Eu já criei um menino, eu! Eu já fui um menino.
- Nossa grande criação.
- Ei! – geme ofendido.

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A mulher está deitada no parque, com a barrigona de fora, alisando como um gordo depois de um almoço farto.
- Amor fala com ele.
- Com ele quem? – olha em volta.
- Com o Arthurzinho!
- Mas ele não nasceu ainda.
- Ah, amor.
- Denise eu não vou falar com uma barriga.
- Não é uma barriga, é seu filho.
- Não é uma barriga, na qual meu filho está dentro.
- Ah fala amor. Ele deve achar que eu sou mãe solteira.
- Ele nem sabe o que é mãe solteira.
- É, mas se você não falar com ele agora, quando ele nascer vai descobrir por que não vai mais ter o pai por perto.
- Amooor...
- Fala com ele.
Silencio. Ela olha com aquela cara que só uma mãe sabe fazer. Sem dizer uma palavra, mas dando a entender tudo. Ele se aproxima da barriga. Da uma olhada em volta pra ver se ninguém está vendo, mesmo eles estando sozinhos em casa. Fica parado com a boca aberta, mas não sai nada.
- Fala!
- Calma, nunca conversei com ele. Tenho que pensar bem o que vou falar.
Silencio.
- Fala caramba!
- Porra!
Ela levanta.
- Ah essa é a primeira coisa que quer que seu filho escute de você? Porra!
- Amor, foi sem querer.
Ela sai da sala e segue para o quarto. Fecha a porta.
- Amor, desculpa, eu tava com vergonha.
Silencio.
- Não quis falar por mal. Filho desculpa o papai!
- Ele não quer assunto com você!
Silencio.
- Desculpa!
Silencio.
- Ah, quer saber eu não queria falar com o seu umbigo mesmo!
Vira as costas.
- Ele ouviu isso Manuel, ele ouviu isso!

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Lógico, é carnaval!

- Onde você ta indo?
- Pular carnaval!
- Como assim pular carnaval?
- Ué, pulando, dançando, cantando, se divertindo...
- Mas você é um cachorro, não pode pular carnaval!
- Por quê?
- Porque cachorro não pula carnaval.
- Quem disse?
- Eu. E o mundo inteiro.
- Nunca vi o mundo inteiro dizer isso, só to vendo você. E outra eu pulo carnaval todos os anos. Desde que eu completei dois anos. Você que não viu por que só sabe dormir.
- Ah eu durmo mesmo, os feriados foram feitos pra isso.
Silencio.
- O que você ta esperando?
- O Bob, e o Max vão passar aqui. Tão terminando de vestir a fantasia.
- Fantasia?
- É vamos num baile a fantasia.
- Baile a fantasia de cachorro? Só me faltava essa.
- O que, você nunca foi?
- Não!
- Nem de baile a fantasia de gato?
- Não. Gato não comemora o carnaval!
- Nossa que chato ser gato.
Silencio.
- Veste uma fantasia de cachorro e vem com a gente!
- Não, eu não gosto de fervo, bagunça. Prefiro dormir.
Silencio.
- Não é um baile a fantasia?
- Sim!
- E por que você não esta de fantasia?
- Mas eu to!
- Do que?
- De vira lata!
Silencio.
- Eu tava sem dinheiro pra alugar fantasia. Vou lá, eles chegaram.

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- Mãe to indo.
- Onde?
- Pular carnaval.
- Ta bom.
Ele vira as costas e vai saindo.
- Ei se for transar use proteção.
- Mãe!
- O que?
- Eu vou transar, não jogar paintball.

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- E aí, já pegaram quantas?
- Eu já peguei cinco.
- Eu peguei sete.
- Caramba acredita que ainda não peguei nenhuma.
- Não acredito.
- Sério.
- Ta muito fácil, por que não pegou?
- Não sei, eu to chegando em todas, e nada.
- Porra, mas você é o que sempre pega mais.
- Pois é, sei lá o que ta acontecendo.
- Será que não é a tua fantasia.
- Não, não pode ser.
- Sei não.
- Não é. Minha fantasia ta perfeita.
- É, realmente está perfeita.
- Mas não sei se devia ter exagerado tanto.
- Não tem como se fantasiar de Lady Gaga sem exagerar tanto.
- É ele tem razão.
Silencio.
- Por que será que não to pegando ninguém. – fala e sai desfilando no salto atrás das mulheres.

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- Pai to indo.
- Onde?
- Pular carnaval.
- Ta, cuidado pra não arrumar um filho por aí.
- Que isso pai, não sou irresponsável assim. Uso sempre camisinha. E com tanta propaganda assim tem que ser muito burro pra acontecer alguma coisa desse tipo no carnaval.
- Ei, saiba que na minha época não tinha tanta propaganda assim. Eu não tenho culpa.

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- E aí cade a camisinha.
- Putz, não tenho!
- Não sem camisinha não rola.
- Ah não é.
- Não.
- Mas é carnaval!
- Por isso mesmo que você tinha que ter camisinha.
- Por que.
- Por que é a época que mais se usa camisinha.
- Mas eu não esperava que ia rolar alguma coisa.
- E não vai.
- E se eu correr lá buscar uma.
- Aí eu vou perder o clima.
- Não vai não. Eu vou correndo e volto correndo.
- Ah não, se você sair pedir camisinha agora vão saber que você vai fazer sexo.
- E o que é que tem?
- Eu tenho vergonha.
- Vergonha por que? É carnaval.
- Por isso mesmo, vão pensar que eu sou dessas que sai dando pra qualquer um no carnaval.
- Ei eu não sou qualquer um.
- Eu não sei nem seu nome.
- Dimas! Pronto não sou mais qualquer um.
- Ta, mas mesmo assim não da...
- Por que, é carnaval ninguém ta nem aí pros outros.
- Ah mas e se alguém ver você pegando...
- Ninguém vai te ver. Eu vou lá peço pra um amigo e volto.
- Mas e depois quando você me apresentar para o seus amigos, o que eles vão pensar?
- Eu não vou te apresentar pra eles.
- Ué, por que não?
- Por que é carnaval!

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- Ei gatinha que tal você dar uma ré na minha marchinha! – fala no ouvido.
- Que palhaçada é essa.
- Aí caramba, você é homem.
- Sim. – responde e arruma a calcinha, bravo.
- Desculpe, me confundi.
- Confundiu é, você vai ver só. – sai.
Silencio. Ve outra de costas para o balcão.
- Delicia, quer ver a mangueira entrar. – chega cochando.
- Ei, que porra é essa de mangueira?!
- Você é homem também. – leva um susto.
- Claro. Tira essa mangueira pra lá! – arruma a saia.
- Foi mal, é que eu vi de costas, parecia uma mulher.
- Opa, opa... Como assim?!
- Quer dizer, não é que parecia, parecia... É que eu já bebi, e...
- Então da uma segurada na bebida aí.
- Verdade, né. Desculpa novamente.
- Dessa vez passa, por que é carnaval. – arruma os peitos falsos e vai embora.
O homem fica parado no balcão, tomando uma dose.
- E aí gato, bora pra pista, só tava faltando você pra completar meu bloco! – arruma a gola da camisa.
- Sai pra lá!
- Ei você ta louco.
- Ah você é mulher.
- Claro que eu sou mulher. O que você pensou que eu era? – coça a calça na parte do saco.
- Sei lá, você ta vestida de homem.
- Lógico, é carnaval.

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Alta madrugada, a porta se abre, o homem entra de fininho, sem camisa com colar havaiano, confetes e serpentina no corpo. Acende a luz, se depara com a mulher esperando ele no sofá.

- Bonito, em seu Zé!
- Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele? Oi, amor!
- Onde você estava?
- Na empresa.
- Como na empresa, hoje é feriado. Você saiu buscar pão e sumiu...
- Fui buscar o pão na empresa.
- Oi?
- Oi!
- Zéééé...
- Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele?
- Cala a boca.
- Desculpa!
- Por que você está sem camisa e cheio de confetes na cabeça.
- Por que é carnaval!
- Eu sei que é carnaval. Eu quero saber o que isso tem a ver?
- Tem tudo a ver, vai num baile de carnaval pra você ver se não sai assim também!
- O que você foi fazer num baile de carnaval?
- Buscar pão?
- Quem é que vai buscar pão num baile de carnaval?
- Eu. Era o único lugar aberto.
- E cadê o pão.
- Não tinha pão.
- Claro que não tinha, é um baile de carnaval, lógico que não vai ter pão.
- Você que pensa! Tinha até ET, por que não pode ter pão.
- Você não tem vergonha na cara?
- Tenho.
- Não parece.
- É, por que está debaixo dos confetes e das serpentinas.
- Zéééé...
- Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele?

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Cara, e se...

No bar, depois de algumas cervejas.
- Cara.
- Oi?
- Se você fosse pra uma ilha deserta.
- Ih eu to sem dinheiro.
- Pra que?
- Pra ir pra uma ilha deserta. Vou passar o carnaval em casa mesmo.
- Não, não to falando pra ir passar o carnaval. Se hipoteticamente você tivesse dinheiro e fosse pra uma ilha deserta...
- Se eu tivesse dinheiro não ia pra um ilha deserta, ia pra uma ilha cheia!
- Não, eu sei...
- Por que se eu tenho dinheiro, no carnaval, numa ilha meu amigo, eu ia fazer a festa. E ia ser tudo por minha conta. Você ia junto.
- Não, to falando.
- Eu pagava a sua. – interrompe.
- Não...
- A você não sabe o que ia perder. – interrompendo, novamente.
- É, se fosse tudo pago...
- Eu ia pagar tudo, tudinho!
Os dois fazem silencio e ficam imaginando como seria.
- Não, mas não é isso que eu to falando. To falando se te mandassem pra uma ilha deserta. Sem você ter escolha. E você só pudesse levar uma coisa. Só uma! O que seria?
- Eita, essa é difícil. Numa ilha cheia é mais fácil de imaginar.
- Não, mas essa é vazia, só você e você.
- O que eu levaria? Pode ser qualquer coisa?
- Qualquer coisa. Mas só uma!
- Eu levaria um barco. E com ele ia até a ilha cheia.

Algumas cervejas mais tarde.
- Bicho...
- Hum?
- Ei, fala direito comigo. To falando contigo na boa!
- Eu to falando direito, falei “hum”...
- Você não falou “hum”, falou “HUM”.
- E qual é a diferença?
- Sei lá, mas é diferente.
Silencio.
- Cara.
- O que foi amigo, querido, idolatrado, salve, salve...
- E se você descobrisse que vai morrer amanhã a noite.
- Por que? Eu to bem, não to sentido nada. Isola. – bate sete vezes na mesa.
- Pra isolar, tem que bater só três vezes na mesa.
- Mas eu isolei pra caramba.
- Ah... Então, não to falando que você vai morrer... to falando se você fosse, hipoteticamente, sabe SE, SE...
- Entendi...
- Então, SE você descobrisse que vai morrer amanhã, o que faria?
- O que eu faria?
- É, vinte e quatro horas de vida. Mais nada.
- Deixa eu ver...
- Vamos lá, seu tempo já está correndo...
- Você disse que era hipopéticamente.
- Hipotética...
- É.
Silencio.
- E aí?
- Calma cara eu tenho menos de vinte quatro horas de vida, o mínimo que você pode fazer é ter calma.
- Eu to calmo, mas você precisa agilizar não quer deixar nada pra trás.
- Pede mais uma cerveja que eu vou no banheiro.
- Agora?
- Cara, poderia ser minha ultima ida ao banheiro.
- Poh que exagero, você teria vinte quatro horas, dava pra ir mais vezes.
- Não, mas se eu descobrisse que vou morrer em vinte quatro horas não ia desperdiçar indo no banheiro. Agora pede outra cerveja que meu tempo ta acabando.

Muitas cervejas mais tarde.
- Cara
- Oi?
- Pra quem você está olhando?
- Praquelas duas irmãs.
- Lá só tem uma?
- Tem certeza que não são gêmeas.
- Certeza? – Da uma olhada pra conferir – tenho!
- Que pena, então não vai ser hoje que eu vou realizar o meu sonho de fazer amor com gêmeas.
Silencio.
- Cara...
- Oi?
- Se o diabo aparecesse aqui.
- Ah ele não apareceria.
- Como você sabe?
- Por que se ele aparecesse minha mulher avisaria que a mãe dela tava vindo.
Os dois caem na risada.
- Não, sério. Sério. Se o capeta
- É o diabo ou o capeta?
- Os dois são a mesma pessoa.
- Não, não.
- Claro que sim.
- Não, o diabo é o chefe e o capeta é funcionário.
- Da onde você tirou isso?
- Catequese.
- Não sabia que tinha feito catequese.
- Pois é, eu fiz, reprovei dois anos mas consegui terminar!
- Parabéns.
Erguem os copos, brindam, colocam o copo na mesa e fazem o sinal da cruz errado.
- Quem diria hein, você todo religioso.
- Pois é, se não fosse o vinho, hoje eu seria padre.
- Por que se não fosse o vinho?
- Por que padre tem que beber vinho, e eu não gosto de vinho, se padre bebesse cerveja eu ia ser o melhor padre da região.
Os dois assentem com a cabeça.
Silencio.
- Mas então.
- Então o que?
- Se o Diabo aparecesse aqui e dissesse que realizaria qualquer desejo em troca da sua alma.
- Um só?
- Só um!
- Porra, mas minha alma ta valendo pouco mesmo hein. Já ouvi pessoas que ele ofereceu três.
- É, mas estamos em meio a uma crise, sabe como é...
- Não tem como negociar?
- Não. É um só. Um desejo, qualquer coisa.
- Qualquer coisa?
- Qualquer?
- Eu ia pedir, praquela mulher ser gêmeas...
- O que?
- Ia pedir pra eu estar certo, e realmente elas serem gêmeas.
- Só isso?
- Se fosse só um, sim...
- Porra, tem tanta coisa pra ser feita e você ia pedir pra ela ser gêmeas...
- Sim, a alma é minha, que vai ter que trabalhar pra Ele sou eu...
- Ah eu vou pedir outra cerveja.
- Olha aí, e reclamando do meu pedido.

Todas as cervejas depois, o bar vazio e fechando.
- Cara.
Silencio
- Cara.
Silencio.
- Acorda!
- Vem pra cá gêmeas.
- Vamo embora.
- Já?
- O bar ta fechando.
- Ué, mas ainda ta cedo, nem escureceu.
- É mesmo, por que será que ta fechando.
- O dia clareou. – grita o garçom.
- Minha nossa eu não acredito.
- O que foi cara?
- Minha mulher vai me matar.
- O que você vai fazer? Já sabe que vai morrer, agora pensa no que vai fazer...
- Para de brincar cara.
- Tive uma ideia.
- O que? Falar que você ficou mal e eu passei a noite com você no hospital?
- Não.
- O que então?
- Fala que você ficou preso numa ilha deserta.
- Para, eu to ferrado. Minha mulher vai me botar pra fora de casa.
- Hum...
- Que foi?
- Cade o diabo com aquele pedido na hora que a gente mais precisa...

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Na recepção

- Alo é da recepção?
- Não... Recepção, que recepção?
- Do hotel.
- Não é de recepção, você deve ter discado errado.
- Tem certeza que você não é a recepcionista?
- Como assim? Eu tenho certeza que eu não sou, isso é algum trote?
- Não eu to no hotel e tentei ligar para a recepção!
- Sinto muito, mas você deve ter discado errado.
- Estranho ta aqui no cartãozinho: numero da recepção, e esse numero.
- Mas não é!
- Ta bom então, desculpa.
- Está desculpado.
Desliga o telefone. Confere no cartão e liga novamente.
- Pronto.
- Alo recepcionista.
Silencio.
- Alo... Alo...
- Você ligou errado de novo.
- Oi?
- Você ligou pra minha casa de novo.
- Sério?
- Não eu to brincando.
Silencio.
- Qual é o numero que você esta ligando?
- Qual numero é o seu?
- Fala você quem ligou.
- é: zero, jogo da velha e o nove.
- Você discou isso e caiu na minha casa?
- é o que parece... estranho geralmente os números residenciais são sempre oito números.
- Mas aqui em casa também é!
- Tem certeza que não é zero, jogo da velha e o nove.
- Claro que eu tenho certeza.
- Vai ver então, deve ser alguma linha cruzada.
- Deve ser.
- Vou ter que descer lá pessoalmente. Desculpa o incomodo, vou aproveitar e falar disso pra ele.
- É aproveita.
- Obrigado, e novamente desculpa.
- Não esquenta, acontece.
- Tchau...
- Ei espera aí. – fala antes dele desligar.
- Oi?
- O que você queria na recepção?
- Não, não era nada, não esquenta.
- Que isso pode falar, vai ver eu posso ajudar. Já que incomodou tanto mesmo.
- Tem certeza que você não é recepcionista?
- Não... Bobo.
Os dois riem.
- E aí, o que era?
- O que?
- O problema?
- Ah... então, minha TV não está pegando.
- E isso acontece sempre aqui em casa também. Já tentou mexer no cabo?
- Cabo, que cabo?
- Atras da TV, as vezes está solto.
- Não, vou dar uma olhada. Obrigado.
- Que isso.
Desliga. Vai até a televisão, mexe no cabo, a TV volta a funcionar. Ele fica pensativo. Pega o telefone e liga pra agradecer. Dois toques. Atendem.
- Oi, pegou, brigadão!
- Pegou o que senhor?
- A TV, voltou a funcionar.
- Ela tinha parado de funcionar?
- Quem está falando?
- Da recepção.
Silencio.
- Alo, senhor, aconteceu alguma coisa.
Silencio.
- Senhor...
- Não, nada não, liguei enganado.
- Ta ok, precisando de algo é só ligar senhor.
Desliga o telefone. Vai assistir a TV que agora está funcionando. Mas só consegue pensar na “não-recepcionista”.

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- Ei o que você ta fazendo?
- Guardando umas toalhas.
- Como assim?
- É brinde amor, por que você acha que deixam tantas toalhas assim? Como cortesia para os hospedes.
- Tem certeza.
- Sim, tem dez toalhas, ninguém usa dez toalhas em vinte quatro horas. Nós usamos a mesma toalha a semana inteira.
- Sera?
- To falando, ninguém usa tudo isso de toalha, nem o Tony Ramos não usa.
- É né!
- Claro, vai por mim eu já viajei muito.
- É eu sei, mas ainda bem que você parou de fumar...
Silencio.
- Pega os shampoo e os mini-sabonete no banheiro também
- Oi?
- Shampoo e mini-sabonte? Pra que?
- Ué vão ficar aí, ele vão jogar fora. Eles não reaproveitam essas coisas.
- Sim, mas não é pra nós levarmos também.
- Amor nós pagamos uma fortuna por uma diária, quando vi preço achei que era preço de uma mensalidade, não o de uma diária.
- Tem certeza?
- Sim, eles nem ligam.
- Então ta.
Continuam recolhendo as coisas. Ela vai mexer no frigobar.
- Ei, o que você está fazendo?
- Já que eles não reaproveitam as coisas vou pegar as coisas do frigobar.
- Não, você está louca?
- Por que?
- Isso é roubo!
- Ah é?
- Sim. Guarda esses refrigerantes lá e vem me ajudar a tirar esses lençóis.

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- Desculpa senhor, mas o café da manhã já encerrou.
- Mas pera aí, disseram que ficava até as dez.
- Pois é, e agora já são dez e quinze.
- Ah... Mas que isso moça ta cheio de gente comendo...
- Mas é que eles chegaram no horário.
- Eu sei, eu sei. Só que eu perdi a hora por que a mulher da recepção não ligou pra me acordar assim como eu tinha pedido.
- Sinto muito senhor.
- Senti muito? Senti muito?
- Sim, sinto muito!
- Eu quero falar com o seu gerente.
- Ele está na mesa tomando café!
- Então deixa eu entrar falar com ele!
- Sinto muito, mas só posso deixar entrar até as dez.
- Que palhaçada é essa.
- Não é palhaçada senhor, são as regras, está no contrato.
- Moça eu frequento esse hotel toda vez que venho a cidade, você não deve me conhecer por que é nova aqui.
- Deve ser.
- Então, abre uma exceção pra mim.
- O senhor vem sempre no hotel?
- Toda as vezes me hospedo aqui.
- Então o senhor sabe como funciona.
- Sim, eu sei.
- Então sabe que não podemos deixar ninguém entrar depois das dez.
- Ta, mas não vai mais acontecer.
- Que bom, eu não gosto de ter que barrar nenhum hospede.
- É deve ser ruim mesmo.
Ela fala, vira as costas e o deixa na porta.
- Ei, abre aqui então pra mim.
- Sinto muito, mas não posso! Se abrir pra você vou ter que abrir para os outros.
- Que outros não tem mais ninguém aqui.
- Isso é o que o senhor pensa. Isso é o que pensa.
Ele fica na porta, ela pega um prato e se serve com ovo mexido e salsicha com molho.