sexta-feira, 8 de junho de 2012

Os Ex's


De madrugada, num desses mercados vinte quatro horas. No corredor de bebidas ele tromba com o carrinho no dela, porque está empurrando de cabeça baixa e como ela está abaixada lendo um rotulo na vê. Nenhum dos dois está no seus melhores dias.
- Ei olha por onde... Milton!
- Cintia!
Ela levanta, lembrasse como está vestida e se arrepende de ter levantado.
- Tudo bem. Quanto tempo hein...
Cumprimentam-se sem jeito, é a primeira vez que se veem desde quando terminaram o noivado de 3 anos, que terminou com a louça ganhada no casamento, inteira quebrada.
- Quanto tempo.
- Caramba você ta bem.
- Você também ta ótimo.
Agora quem se lembra como está vestido é ele. Mas não passou na cabeça de nenhum dos dois que ele poderiam se encontrar. Não no mercado. Não no corredor de bebidas.
- E aí, o que você anda fazendo?
- Ah nada demais. Só trabalhando mesmo.
- Ta trabalhando lá na fabrica ainda?
- Ainda.
- Ah que legal.
- Quando estávamos juntos você não achava né.
- Oi?
- Nada não, e você o que anda fazendo.
- Só estudando.
- Ah ta se dedicando para os concursos ainda.
- Sim.
- Achei que já tinha passado em algum.
- Não.
- Logo você passa.
Silencio.
- E a sua mãe como tá?
- Morreu.
- Aí... Sinto muito.
- Sente mesmo? Achei que você não gostasse dela.
- Não, eu gostava, sempre gostei.
- Não foi isso que você me disse antes de terminarmos.
Silencio.
- Comprando bebidas é?
- É.
- Achei que você não bebesse. Começou a beber depois que terminamos?
- Não eu não bebo ainda não. Vou dar uma festinha.
- Ah eu também.
- Achei que você não gostasse de festa.
- Pois é, as pessoas mudam.
- É mudam.
Silencio.
- Então é isso né.
- É.
- Vou indo porque ainda tenho que comprar mais algumas coisas pra festa.
- É eu também.
Ela da um beijo no rosto dele, vira as costas e vai saindo.
- Cintia.
Ela vira com um sorriso no rosto.
- Seu carrinho.
- Ah.
Ela volta, pega o carrinho e sai. Ele vai na outra direção. Ambos arrependidos de não ter ficado mais.

---------------------------------------------------

- Ei me da uma moeda pra eu comer.
O homem passa reto.
- Uma moedinha por favor?
Mais um passa sem nem mesmo se dar o trabalho de olhar. Uma mulher falando ao celular também passa. Ele a acompanha com o olhar.
- Madame, qualquer trocado. Então tomara que você seja atropelada!
Por trás vem uma mulher com algumas moedas, joga na lata.
- Muito obrigada. – vira pra agradecer.
- Pablo.
- Miriam? – ele levanta.
- É você mesmo?
- Sim. – ele abraça ela, todos na rua olham espantados, ele lembra que é mendigo, e que são ex, então desfaz o abraço.
- Nossa como você está bonita. Caramba.
- Você também, ta mais magro.
- Pois é, to fazendo dieta, forçada. – ri sem graça, ela também.
- Quanto tempo hein!
- Pois é. Desde que terminamos.
- 3 anos.
- 3 anos. Parece que foi ontem.
- Parece...
- E aí, o que você anda fazendo de bom?
- A terminei minha pós, fui promovida a gerente regional, comecei a fazer um mestrado, essas coisas.
- Ah você sempre foi estudiosa, esforçada. Merece.
- Brigado e você?
- Eu to bem.
Silencio.
- Quer dizer, depois que a gente terminou eu comecei a beber, larguei a faculdade, fui mandado embora de serviço, despejado do apartamento... Mas agora eu to me recuperando.
Ela da uma olhada pra ele.
- Ah, que bom.
- Pena que não demos certo né. Tínhamos tantas coisas em comum.
- Pois é, mas a vida é assim mesmo.
- Você ta saindo com alguém?
- Não, não to não... To em outro momento da minha vida...
- Nossa eu também não to. Será que o destino não está querendo nos dizer alguma coisa?
- Ih eu estou atrasada. – olha para o pulso que nem tem um relógio. – tenho que ir.
- Vamos marcar alguma coisa.
Ela vai saindo.
- Passa aqui quando quiser, to sempre aqui. Alias você ta pisando na minha sala. – fala e da risada.
Ela fica assustada e continua sorrindo pra não perder a postura.
- Me liga naquele orelhão ali que eu que sempre atendo.

---------------------------------------------------

Numa boate de strip-tease
- Agora vai entrar no palco ela, a dama da noite, a loba, Mélani.
Entra uma musica de fundo. Ela vem desfilando na passarela. Sobre a fumaça e as luzes vermelhas ela desliza no cano.
- Mélani que é nova na casa, mas experiente na vida.
Começa a tirar as peças de roupa, uma a uma. Os gatos pingados presentes, estão um em uma mesa com uma mulher com a bunda na cara. Outro bebendo no balcão. E outro parado de frente para o palco. Gritando e assoviando.
- Tira... Tira... Tira!
Ela vai desamarrando o sutiã e se aproximando dele. Então joga o sutiã na cara dele.
- Cleuza?
- Efraim?
Ela cobre os seios.
- Sensacional Mélani, esta levando os homens a loucura.
- O que você está fazendo aqui?
- Estou trabalhando! – volta a dançar.
- Essa Mélani sabe como seduzir um homem. – continua o locutor.
- Eu não sabia que você era...
- Mas eu não era. – interrompe, antes que ele fale.
- Ufa.
Ela continua dançando.
- Rebola mais para o seu publico Mélani.
- Então você virou depois que terminamos.
- Sim! – rebola.
- Não acredito. Quando estávamos juntos você era tão certinha.
- Pois é...
- Nunca quis nem realizar minhas fantasias.
- É...
- Agora está aí...
- Veja bem o que vai falar, isso é meu trabalho. – tira a calcinha e joga nele.
- Não acredito. – fica inconformado.
Ela volta para o poste e fica se esfregando desengonçadamente sobre ele. Termina a musica.
- Essa Mélani é fogo e paixão. Aplausos para ela.
O homem que estava cochilando no balcão durante a dança, acorda só para aplaudir. Mélani vai até o Efraim buscar a calcinha e o sutiã.
- Quanto você cobra pra realizar meus desejos, de quando ainda eramos namorados?

---------------------------------------------------

Já se aproxima das quatro da tarde, as portas do banco estão quase fechando quando entra dois homens encapuzados e sacam armas, um rende o segurança e o outro desce em direção aos caixas.
- Atenção todo mundo para o chão.
As poucas pessoas no banco nem dão bola e continuam parada na fila, cada uma mexendo no seus celulares, desligadas do mundo.
- Pega fila igual todo mundo. – resmunga alguém que está no meio.
- Isso é um ASSALTO!
Finalmente dão atenção pra ele.
- Todo mundo pro chão. – chacoalha a arma enérgica e desengonçadamente.
As pessoas vão descendo. – Se alguém tentar chamar a policia eu mato. Joguem os celulares pra cá.
Vai recolhendo os celulares.
- Só não tentarem bancar o herói que não vai acontecer nada.
Entrega um saco plástico para os atendentes do caixa e faz sinal pra que eles coloquem o dinheiro lá dentro.
- Não quero cheque, só dinheiro.
- Mas acabamos de colocar no cofre.
- Não colocaram ainda. Eu sei que não.
- Colocamos.
- Não mente pra mim. Coloca logo o dinheiro aí. Não é de vocês. Não vai sair do seu bolso.
Uma mulher que estava no banheiro chega no meio da bagunça. Tenta voltar, mas o bandido a vê antes que ela possa dar ré.
- Parada aí! – aponta a arma pra mulher. Ela está de costas pra ele. – Onde você pensa que vai.
Ela vira lentamente. Ele a reconhece é sua ex. Ele se engasga. O senhor que esta ao lado, da um tapa nas costas fazendo o voltar ao normal.
- Muito obrigado. – diz com as mãos nos joelhos, respirando lentamente.
Todos na fila olham com cara de bravo para o senhor.
- O que? Ele estava engasgado.
Balançam a cabeça negativamente em sinal de desaprovação.
- Vai lá pro canto com todo mundo. – engrossa a voz pra não ser reconhecido.
- Oi?
- Vai lá pro canto. – aponta o caminho com a arma.
Ela passa olhando para ele. Os caixas pararam de colocar o dinheiro.
- Porque vocês pararam?
Eles voltam a encher os sacos. A mulher fica olhando fixamente para o bandido. Ele desvia o olhar. Assovia. Um rapaz ergue a mão.
- O que foi?
- Você vai nos roubar também?
- Não, só o banco.
- Por que?
Todos olham torto para o rapaz, como olharam para o velho.
- Por que eu só quero roubar o banco!
- Mas eu posso falar para o meu patrão que você me roubou?
- Não sei. Pode.
Fica um silencio constrangedor.
- Vamos logo com isso. – faz sinal para os caixas.
- Claudio? – pergunta a mulher
Ninguém responde.
- Claudio, é você?
- Anda...
- É você!
- Daqui, ta bom só isso. – pega a sacola e vai saindo.
Ele vai sair ela entra na frente dele.
- Não acredito que é você.
- Não sou eu!
- É sim.
Começa um murmúrio entre os reféns.
- Calem a boca vocês aí!
- Não acredito que você chegou a esse ponto.
- Não sei do que você está falando. – tenta passar ela não deixa.
- Você está fazendo isso porque eu terminei com você né!
- Você está louca, eu faço isso desde criança. Você esta viajando!
- Ah é você mesmo. Só você fala: você está viajando.
Ele balança a cabeça.
- Tudo isso por que eu terminei com você.
- Isso não tem nada a ver com você.
- Tem sim que eu sei. Ainda bem que eu terminei com você.
Todos ficam olhando pra ele.
- Não foi você quem terminou. Não foi ela. – se explica para os reféns.
- Foi sim. – retruca.
- Nós entramos num acordo.
- Sim, o acordo era você ficar longe de mim.
O murmúrio retoma.
- Calem a boca. – aponta a arma para os reféns.
- Claudio se você está fazendo isso pra chamar minha atenção você conseguiu.
- Como assim chamar sua atenção? Eu nem sabia que você ia estar aqui!
- Ah Claudio, eu não sou boba.
- Você está louca. Vou pegar meu dinheiro e dar o fora.
- Isso, vai mesmo por que eu não vou voltar com você. Ainda mais depois disso. O que meus pais diriam.
- Nada muito pior do que já diziam.
- Nossa como você é ingrato. Meus pais te tratavam como um filho.
- da puta!
Os reféns riem.
- Agora deixa eu indo, que a minha mulher ta me esperando pra jantar. – pega a bolsa dela e sai.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Policial bom e policial ruim.


Policial bom policial ruim, os dois são estabanados, então eles confundem.
Dois policiais estão dentro do carro, em frente a uma casa, onde uma mulher, que está sendo mantida como refém de um homem, conseguiu fazer uma chamada de emergência para a policia. Eles tem que entrar e negociar com o bandido, mas a situação é complicada porque o homem está bêbado.

- Beleza então vamos entrar.
- Vamos.
- Vamos derrubar a porta e entrar atirando.
- Não, não podemos, temos que ter uma abordagem mais leve.
- Ah... então batemos na porta, pedimos pra ele abrir, então quando ele abrir entramos atirando!
- Não podemos atirar.
- Ah não?
- Não.
- Então porque andamos com armas?
- Porque somos policiais.
- Que graça.
- Não podemos atirar, ele tem uma refém.
- Ah...
- Então, temos que ter um plano.
- Eu já dei a minha ideia.
- Já falei que não vamos arrombar a porta e atirar.
- Então arruma um plano melhor bonzão!
- Vamos usar a tática do policial bom e policial ruim.
- Policial bom e policial ruim?
- É, nunca viu nos filmes? Um faz o papel do policial bom, o que quer ajudar o bandido, livrar a cara dele. O outro é o mal que quer ferrar com ele.
- Entendi, legal.
- E aí, qual você quer ser?
- Deixa eu pensar...
Silencio.
Um grito sai de dentro da casa.
- Vamos cara.
- Espera aí... Espera aí... O policial bom.
- A droga, eu queria ser o policial bom.
- Você que mandou eu escolher.
- Ta.
- Então como fazemos?
- Eu bato na porta e mando o meu texto de policial ruim, aí você intervém como policial bom.
- Beleza.
- Vamos lá!
- Espera aí... – segura o braço do parceiro.
- O que?
- Qual vai ser a minha deixa?
- Como assim?
- Quando eu sei que posso começar a falar?
- Quando achar que deve.
- Ta!

Os dois descem do carro e vão em direção a porta.
Batem na porta. Ninguém atende.
Tocam a campainha. Ninguém atende.
Batem palma. Ninguém atende.

- Abre a porta. Aqui é da policia. – fala e bate na porta mais uma vez.
- Mas não precisa ter pressa viemos em paz.
O primeiro policial olha torto pra ele.
- O que você está fazendo?
- Sendo bom!
O policial “ruim” balança a cabeça negativamente.
Bate de novo, dessa vez mais forte.
- Recebemos um chamado daqui dessa casa, queremos saber o que está acontecendo.
- Se está tudo bem. – diz o outro. – só fazendo nosso serviço. Afinal de contas é pra isso que somos pagos. É onde vai seu dinheiro do imposto.
Olha torto.
Bate novamente, cada vez mais forte.
- Se não abrirem vamos arrombar.
- Você não falou que não íamos arrombar? – sussurra.
- E não vamos. – responde, também sussurrando. – só estou fazendo meu papel.
- Ah.
- Se não abrirem vamos arrombar. Vou contar até dez.
- até trinta!
- Oi?
- Tenho que ser bom. Dez é muito pouco.
- Vou contar até dez... Um.
- Até trinta.
- até dez... dois.
- Pode vir devagar, não precisa ter pressa.
- Três...
- Ele está flertando.
- Quatro.
- Quatro e meio.
- Cinco.
- Não precisa ter pressa, tem 25 segundos ainda.
- seis.
- Pode terminar o que ta fazendo.
- Sete.
- Ele não vai arrombar.
- Oito.
- Não temos autorização pra fazer isso.
- Nove.
- Eu não vou deixar.
- Dez.
Da uma bica na porta, arrombando-a.
- O que você fez?
- Arrombei. – fala e vai entrando na casa, cauteloso.
- Era pra contar até trinta. – segue o parceiro.
- Falei que ia contar só até dez.
- Mas não é pra trabalharmos juntos?
- Sim. E você fez o papel direitinho.
Param enfrente a uma porta que está entre aberta.
- Se soubesse que podia arrombar a porta eu tinha escolhido ficar com o policial ruim.
- Eu te dei a opção.
Abrem a porta com tudo. Assustando o casal que estava dormindo.
- POLICIA!
- Aí meu Deus. – grita a mulher, acuada pela arma.
- Mãos para o alto, sem vergonha!
- Calma aí amigão, ele tem o direito de se defender.
- O que está acontecendo? – diz o homem, só de cueca e com as mãos pra cima.
- Eu é que pergunto. Se acha o bonzão né.
- Não precisa tratar ele assim, ele vai admitir o crime dele. não precisa atirar em ninguém. – fala e da uma piscadinha.
- Atirar? Porque atirar?
- Você sabe muito bem! – chacoalha a arma energicamente na direção dele.
- É melhor colaborar, não sei por quanto tempo vou conseguir deter ele.
- Eu não sei do que vocês estão falando.
- O que está acontecendo? – grita a mulher aos prantos.
- Não se preocupe dona, te salvamos das garras desse vagabundo!
- É, pode ficar tranquila. Não vamos fazer nada de mau com ele. Só fazemos o nosso trabalho. Afinal de contas somos pagos pra isso, você paga seus impostos pra ter uma segurança garantida...
- Do que vocês estão falando? – pergunta ela, dessa vez sem chorar.
- Recebemos uma chamada que a senhora estava sendo ameaçada pelo seu marido, que ele estava bêbado e queria te matar.
- Mas eu não bebo! – defende-se o homem ainda com as mão pra cima.
- Aham... E eu também não mato! – chacoalha a arma.
- Calma aí!
- Que chamada? Meu marido não bebe. Nossa religião não permite.
- Ah não? – abaixa a arma e pergunta confuso.
- Não. – responde o homem.
- Eu não liguei pra ninguém, trabalhamos o dia inteiro e estávamos dormindo.
- Não é o que parece. – aponta para o KY na cabeceira da cama.
Os dois ficam constrangidos.
- Não ligamos pra ninguém.
- Recebemos um chamado, aqui da Marilia Amaral, 163.
- Aqui é 166. – fala o homem.
- Ninguém perguntou pra você. – volta a apontar a arma.
- Calma aí. Aqui é a 166?
- É.
- Caralho entramos na casa errada. – resmunga para o policial ruim.
- E agora? – resmunga de volta.
O casal assiste os dois um cochichando para o outro.
- Vamos sair fora. – baixa a arma o policial “ruim” e vai saindo.
- Desculpa incomodar. Cometemos um pequeno engano. Podem voltar a dormir. E saibam, no que precisar da policial estamos aqui pra servir. Afinal de contas vocês pagam impostos... – vai fechando a porta e saem. Andando a passos rápidos.
- Caramba. Erramos a casa.
- Acontece.
- Ta! Mas agora vamos na certo.
- E dessa vez, eu sou o policial ruim. – se encaminham para a casa do outro lado da rua. 

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Dessa pra melhor


- Filho, vem aqui. – fala o pai com uma voz de velório.
- Agora?
- É.
- Mas agora eu to assistindo.
- Depois você assiste.
- Mas depois não vai estar passando.
- Você assiste outra coisa.
- Mas eu não quero assistir outra coisa.
- Desliga essa televisão e vem aqui agora.
Ele desliga a TV e vai para o quarto, batendo o pé e levando o controle.
- Senta aqui.
- Não, pode falar. Eu fico em pé mesmo.
- Senta.
Ele senta.
- Você gosta da sua vó né.
- Sim. Apesar do cheiro dela, sim.
- É ela tinha aquele cheiro por que já estava meio velha.
- Bem velha!
- Bem velha. Mas você sabe que ela gostava muito de você.
- Sim eu sei. Ela sempre me dá dinheiro.
- Não só por isso.
- Não, dava presente também.
- Mas tem mais coisas.
- Tenis, roupas.
- Sim, sim. Ela gostava muito.
- Me leva no shopping.
- Já entendi, já entendi.
Silencio.
- Então, como eu disse, ela já estava meio velhinha.
- Bem velha.
- Bem velha! E precisava descansar.
- Ela não foi dormir no meu quarto né?
- Não, não foi.
- Ufa, a ultima vez que ela ficou lá meu quarto ficou com um cheiro estranho.
- Não, ela não foi dormir lá. Na verdade ela já não está mais entre nós.
- A mamãe colocou ela numa casa de velhos?
- Oi?
- Eu vi a mãe falando com a amiga dela que a vovó deveria estar numa casa de velhos, pelo menos parava de vir aqui encher o saco.
- Sua mãe falou isso.
- Falou.
- Filha da P... – Para ao ver que o filho esta prestando a atenção nele. – então, mas ela não foi pra um asilo.
- Casa de velhos.
- É. Ela não foi pra lá.
- Ela foi dessa pra melhor.
- Ah ela disse que quando fosse ia me levar.
- Ãhm? – arregala os olhos o pai.
- Por que ela jogava, no bingo e na mega-sena, falava que quando ganhasse ia sair dessa pra uma melhor. E ia me levar. A vovó é mentirosa.
- Ela disse que se ganhasse ia embora?
- Sim.
- Filha da P... – para de novo. – Não, mas ela não ganhou na mega-sena.
- Então o que aconteceu?
- Você sabe que um dia todos nós vamos morrer.
- Como o Totó?
- Como o Totó!
- Mas eu não quero morrer atropelado?
- Morrer atropelado?
- Você disse que eu ia morrer igual o Totó.
- Mas não vai.
- Ufa.
Silencio.
- Você e a mamãe também vão morrer?
- Também. Infelizmente sim, mas não agora.
- Quando?
- Quando o que?
- Quando que vocês vão morrer?
- Não sei. Mas vai demorar ainda.
- Mas e se você for atropelado igual o Totó?
- Eu não vou ser.
- Mas e se eu for?
- Mas eu não vou. O Totó foi idiota.
O filho fica em silencio.
- Não ele não foi idiota, idiota foi quem atropelou.
- A mamãe.
- Isso, a mamãe.
- A mamãe é uma idiota mesmo.
- Não fala isso perto dela.
- Ta, deixa aquela idiota.
Silencio.
- Então, como eu tava falando. Um dia todos nós vamos morrer.
- Só não sabe quando.
- É, não se sabe quando. Então, sua vó, morreu. – fala, abaixa a cabeça, escorre uma lagrima.
Silencio.
- Igual o Totó?
- Sim... – responde ainda de cabeça baixa.
- A mamãe é uma idiota mesmo, já atropelou o cachorro agora a vovó também.
O pai levanta a cabeça lentamente, enxuga os olhos, fica olhando para o filho, que fica em silencio olhando pra ele.
- Pode ir assistir televisão.
O filho levanta, sai correndo do quarto, pula no sofá e liga a televisão.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Poltrona errada


Dentro do ônibus de viagem sempre torcemos para que ninguém sente do nosso lado. Cada pessoa que passa reto, não senta na poltrona vazia, é uma comemoração interna. Mas raramente conseguimos viajar sem alguém do lado. E parece que a vida faz uma sacanagem, por que quanto mais você torce para não sentar alguém do seu lado, mais chata é a pessoa que senta.

Os dois passageiros estão em silencio. O homem na 33, a mulher na 34. Ela da uma olhada pra ele, ergue as sobrancelhas o cumprimentando, ele repete o movimento dela. Ela da um suspiro, é a deixa pra ele começar a ler o livro antes que ela comece a falar, tarde demais, ela começa.

- Eu não sei porque, mas consigo dormir no ônibus de viagem.
- Ah! – responde e marca, com o dedo, a pagina que vai começar a ler.
- É muito desconfortável.
- Pois é.
- Eu deito e pensou: hoje eu vou dormir a viagem inteira. Então da cinco minutos eu viro pra um lado, mais cinco, para o outro, mais cinco, para o outro. Eu fico me revirando e não consigo achar a posição correta.
- Hum...
- Eu admiro quem consegue.
- Eu também.
- Também não consegue?
- Também admiro.
- Ah.
Silencio. Ele abre o livro onde o dedo estava marcando.
- Sabe, acho que na verdade não tem uma posição correta pra dormir.
Ele da uma olhada pra ela, mas dessa vez mantém o livro aberto.
- Não sei como as pessoas conseguem.
- Nem eu.
- Olha aquele dali, o ônibus nem saiu da rodoviária e ele já está dormindo.
Assente como se concordasse. Volta a olhar para o livro.
- Por que eu não sou como ele?
“pois é, porque você não é?” Pensa ele, mas não fala.
Silencio. Ela fica observando o cara dormindo. ele aproveita que ela parou de falar e começa a ler.
- Sabe de uma coisa.
Dessa vez ele não se da o trabalho nem de tirar os olhos do livro.
- Sempre que eu viajo eu tenho a impressão que o banco dos outros deita muito mais do que o meu. – força uma tosse tentando acordar o passageiro que está dormindo. Todos olham para o banco onde eles estão, menos o homem que continua dormindo. Enfia a cara dentro do livro.


- Senhor esse é o meu lugar.
- Claro que não!
- É senhor, está aqui no bilhete 33.
- Pois é eu sei, está no meu também.
- Não tem como estar no teu.
- Está.
- Então pega o bilhete pra eu ver.
- Porque?
- Porque eu quero que o senhor prove que não está no meu lugar.
- Eu não tenho que te provar nada.
- Como não?
- Não tendo. E outra olha o tanto de banco vago que tem.
- Mas eu não quero esses bancos vagos. Eu quero o meu banco. E outra, e se eu sento no lugar de alguém e essa pessoa chega.
- Você sai.
- Então sai o senhor.
- Porque?
- Porque o senhor está no meu banco.
Silencio.
- Senhor?
- Oi?
- Faz favor?
- Depende o que?
Ela fica parada com a mão na cintura olhando pra ele.
- Esse é o meu lugar.
- Como seu lugar?
- O senhor está na poltrona 33, certo?
- Sim.
- E aqui no meu bilhete está escrito: poltrona 33. – mostra pra ele.
- Certo.
- Então logo o senhor está sentado na minha poltrona.
- Não estou. Estou na minha.
- Senhor.
- Cade o seu bilhete.
- Na minha bolsa.
- Cade a sua bolsa?
- Aí em cima.
- Então pega ela.
- Não.
- Por que não?
- Vai se eu levanto pra pegar e alguém senta no meu lugar?!
Silencio. Ela fica parada olhando pra ele. Então pega a bolsa que está no compartimento acima da cabeça dela e joga pra ele, que tira o bilhete e mostra pra ela.
- Viu, poltrona 33.
- Como assim?
- Viu!
Finalmente o motorista aparece para intervir.
- O que está acontecendo aqui?
- Ele está no meu lugar. – fala e entrega o bilhete para o motorista que confere.
- Não estou não. – diz ele.
- Senhor? – diz o motorista olhando com cara de reprovação.
- Caramba parece que ninguém aqui confia em mim mesmo. O que será que tem de errado comigo?
Saca o bilhete, entrega para o motorista, que observa em silencio.
- E aí diz pra ela como eu não estou na poltrona errada.
- É realmente ele não está na poltrona errada.
Ele abre um sorriso de comemoração. Ela se põe a questionar.
- Mas como...
- Ele está no ônibus errado.
O sorriso dele some da cara. Enquanto o dela aparece.
- O seu é aquele do lado que já saindo, se o senhor não correr vai perder.
Ele junta as coisas e sai rapidamente. Ela senta vitoriosa.


Ele ainda está com o livro aberto na mesma pagina. Ela ainda não parou de falar.
- Eu acho que deveriam lançar um Kama-sutra, com posições para dormir no ônibus de viagem.
Ele só balança a cabeça.
- Cometa-sutra, é um bom nome. Cometa-sutra.
Um homem chega perto da poltrona deles e para. Ela fica em silencio. O homem confere o bilhete, o numero, o bilhete o numero.
- O senhor está na minha poltrona.
- Não.
- Está sim. 33, essa é a minha poltrona. E dessa vez eu tenho certeza. – argumenta o homem que a poucos minutos estava no ônibus errado.
O homem saca o bilhete do bolso e confere, ele realmente está no errado, o seu é o 36. Então ele fecha o livro e se encaminha para a poltrona correta, dando graças a Deus por estar errado. O outro homem senta, dessa vez no lugar certo. Silencio. A mulher que está na poltrona do lado, solta um suspiro.

- Eu não sei porque, mas consigo dormir no ônibus de viagem.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Vim do futuro


Miltinho levanta no meio da madrugada pra ir no banheiro e tomar uma água. Quando acende a luz se depara com um homem sentado a mesa. Ele toma um susto.

- Aí meu Deus! – leva a mão a primeira coisa que consegue ver, uma raquete elétrica de matar mosquito.
- Fique onde você está.
O homem nem se mexe.
- Quem é você?
- Você!
- Não eu, você.
- Eu sou você!
- Como assim eu?
- Sou você mais velho.
- Bem mais velho.
Silencio.
- Então você sou eu?
- Sim, eu vim do futuro.
- Como?
- De ônibus.
Miltinho fica olhando abismado.
- Brincadeira, vim numa maquina do tempo.
- O que você veio fazer aqui?
- Vim te trazer uma mensagem.
- Por que não mandou um email?
- Eu mandei você não responde.
- Não recebi nada.
- Verificou o lixo eletrônico?
- Sim, alias eu recebi uma mensagem com o meu próprio email achei que era vírus.
- Não, era eu.
- Ah... Nunca se sabe né, hoje em dia ta difícil. Como está isso no futuro.
- Ta praticamente a mesma coisa.
- Quantos anos você está?
- 38.
- Caramba vou começar a me cuidar mais.
- E aí o como está minha vida? To rico? Casado? Tenho filhos? Me conta tudo.
- Não posso falar.
- Por que não?
- Por que se não pode altera tudo!
- Se não pode falar então o que está fazendo aqui?
- Vim trazer uma mensagem.
- Qual?
- Não entre naquele carro.
- Qual carro?
- Só posso falar isso?
- Como assim só pode falar isso? Eu entro em carros todos os dias!
- Agora é com você!
- Sim e você sou eu.
Silencio.
- Você gastou uma passagem do futuro até o passado pra dizer isso?
- Um dia você vai me agradecer.
Silencio.
- Se agradecer.
- É, pode ser que um dia sim, mas hoje eu to puto.
Miltinho do futuro levanta da mesa e vai se encaminhando para porta.
- Você não sabe nem os números da mega-sena?
- Não, você acha que se eu soubesse ia estar pobre, divorciado e cheio de dividas?!
Apaga a luz e sai.

-----------------------------------------------

No canto do bar estão os últimos dois clientes, esse é um daqueles bares com a politica de só abaixar as portas depois que o ultimo cliente for embora.

- Poti.
Silencio.
- Poti.
Poti esta em silencio, olhando para a garrafa de cerveja que está no fim..
- Poti!
- Shiii!
- O que você está fazendo?
- Valorizando!
- O que?
- A cerveja. Aprendi a dar valor ao que me importa enquanto eu ainda tenho.
Assente com cabeça como se concordasse com ele.
- Cara se você pudesse voltar no tempo, pah!
- Mas eu posso.
- Como assim pode?
- Daqui seu relógio.
Puxa o braço dele, pega o relógio e volta os ponteiros.
- Pronto.
- Não cara, to falando sério.
- Eu também to! – ergue a mão para o garçom. – Garçom que horas são?
- Duas e meia da manhã. – responde o garçom, puto.
- Ele ainda está no horário antigo.
- Não, sério cara. Sério.
- Ta bom, vamo fala sério agora.
- Se você pudesse voltar no tempo, pra quando voltaria?
- Puxa essa pergunta é difícil hein, é hipotética, mas é difícil.
- Qualquer época, sem restrições.
- Só no passado? Não posso ir para o futuro?
- Não. Só voltar.
Silencio.
- Pra que época você voltaria.
- Para quando eu ainda era criança. Não tinha responsabilidade nenhuma. Minha maior responsabilidade era passar de ano, meu único trabalho era lavar a louça, e eu tinha o dia inteiro pra fazer isso.
- Verdade, bons tempos.
- E aí, pra quando você voltaria?
- Agora me deu saudades da infância também.
- Voltaria pra sua infância também?
- Não.
- Então pra quando voltaria?
- Pra quando está cerveja ainda estava cheia. – coloca o ultimo gole no copo e fica olhando para a garrafa com saudosismo.

-----------------------------------------------

- Renato, desliga esse vídeo game e vai dormir por que amanhã você tem que acordar cedo.
- Mãe, amanhã eu não vou acordar cedo.
- Por que, não tem aula? Você não me mostrou nenhum bilhete. É feriado de que? Essas escolas de hoje em dia estão arrumando feriado onde não tem.
- Não é feriado nenhum.
- Reunião de pais?
- Não!
- Você foi suspenso Renato. Se você foi suspenso de novo eu juro que vou te bater. Alias eu não vou só te bater, eu vou te dar uma surra tão grande que eu vou entrar para o livro do guiness.
- Não mãe, eu não fui suspenso.
- Ah bom, por que eu não aguento mais ter que te bater!
Silencio.
- Agora vai dormir. – Fala e vai saindo do quarto. Então lembra que ele falou que não ia pra escola. – Pera aí, por que você não vai acordar cedo amanhã?
- Por que eu vou viajar.
- Viajar? Como assim viajar? Você pediu pra mim? Não, não pediu. Pediu pro seu pai? – tira a cabeça pra fora do quarto e grita. – Sergio o Renato pediu pra você pra ir viajar?
- Não. – vem um grito da sala.
- você não pediu pro seu pai também não. Que papo é esse de viajar?
- Eu vou!
- Que mané, ‘eu vou’, pra onde você pensa que vai.
- Vou viajar no tempo.
- Que papo é esse de viajar no tempo? Você ta fumando maconha? Se eu sonhar que voce está fumando maconha eu não sei o que eu faço. Alias eu sei, eu vou te dar uma surra.
- Não mãe.
- É esse vídeo game que está mexendo com a sua cabeça. É melhor você dar um tempo desse vídeo game. Ele ta fritando seu cérebro. Não sei por que seu pai te deu essa merda. – Coloca a cabeça pra fora do quarto e grita. – Sergio eu falei pra você não comprar esse vídeo game.
- Não! – grita o pai.
- Desliga esse vídeo game e vai dormir.
- Mas mãe, eu não vou pra aula amanhã. Eu vou viajar.
- A vai viajar, vai viajar sim. Não vai viajar não. Alias vai, vai viajar para o hospital se eu descobrir que você não foi pra escola. Agora desliga esse vídeo game. Se não eu vou viajar no tempo e fazer seu pai não comprar essa merda pra você.