terça-feira, 3 de setembro de 2013

Sem Vagas

Na estrada indo viajar. O pai está dirigindo, a mãe de copiloto, dormindo, e o filho atrás, entediado, já que o vídeo game portátil ficou sem bateria. Ele lê todas as placas as quais passa.

- Pai.
- Reinaldo, já está chegando.
- Que bom. Mas eu não ia perguntar isso.
- Ah não?
- Não.
- O que era então?
- Qual é a diferença de hotel e motel.
Por alguns segundos perde o controle e atropela umas tartarugas. Acorda a mulher.
- Já, chegamos, já chegamos?
- Ainda não. – responde o filho lá de trás.
A mulher olha para o marido e volta a dormir.
Silencio.
- E ai pai?
- O quê?
- Qual é a diferença?
- Qual é a diferença entre hotel e motel?
Silencio. Olha pelo retrovisor, o filho está esperando uma resposta.
- A diferença é uma letra. Um se escreve com H e o outro com M.
- Só?
- Só.
Silencio.
- Mas por que o um se escreve com H e o outro com M?
Mais algumas tartarugas.
- Eu to acordada. – a copiloto pula no banco.
Pai e filho olham para a mãe. Ela volta a dormir.
Silencio.
- Já sei.
- O quê?
- Porque um se escreve com H e o outro com M.
O pai pergunta com medo.
- Por quê?
- Por que Motel é pra menina. E hotel é para menino.
O pai respira aliviado.
Silencio.
- Pai!
- Oi?
Silencio.
- Falta muito?

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Passa das duas da manhã. Os dois param no hotel, no meio do nada, praticamente juntos. Ele no carro dele, ela no dela. Ela está indo visitar um amigo, ele está indo ver um cliente. A chuva forte mais a neblina faz com que os dois se encontrem ali lado a lado esperando para ser atendido.
Ele toca a sineta, daquelas antigas, mesmo o hotel não sendo tão antigo, toca pela décima vez, ela olha para ele com ar de reprovação. O recepcionista, que pela cara estava dormindo, vem lentamente.

- No que posso ajudar o casal.
- Não somos um casal.
- É não somos.
- Ok, no que posso ajudar, individualmente?
- Isso daqui é um hotel? – pergunta num tom irônico.
- Sim. – responde sem captar a ironia, ainda está no ritmo do sono.
- O que a gente iria querer as duas e meia da manhã.
- Ah!!!
Entra no sistema.
- Só tenho um quarto.
- Um?
- Um?
- Um. O hotel está lotado.
- Lotado? Esse hotel?
- Sim.
- Quem é que se hospeda no meio do nada.
- Congresso.
- Aqui que congresso?
- Sim, aqui. É secreto. O senhor veio para o congresso?
- Não.
- Então não posso falar.
Silencio.
- Ok, eu vou ficar com o quarto. – Ela fala interrompendo o silencio dos dois.
- Eu cheguei primeiro.
- Não, nós chegamos juntos.
- Ta, mas eu apertei a sineta primeiro.
- Eu teria apertado se você tivesse parado um segundo de apertar.
- Eu ouvi na primeira. – interrompe o recepcionista.
- E por que não veio?
- Achei que fosse um sonho.
Silencio.
- Deixa eu ficar, estou cansada.
- Eu também estou.
- Nossa, onde está o cavalheirismo?
- Eu nem te conheço.
- Desde quando para ser cavalheiro precisa conhecer?
- Ela está certa. – vem o recepcionista em defesa.
- Tem algum hotel aqui perto?
- Tem, vou dar uma ligada.
Vai para a salinha. Os dois ficam em silencio, o clima é mais pesado dentro do hotel do que fora. Alguns minutos depois o recepcionista retorna.
- É, todos lotados. Congresso.
- Mas que congresso é esse?
- A senhora veio para o congresso?
- Não.
- Então não posso falar.
Silencio.
- E agora?
- vocês podem dividir o quarto.
- Mas eu não conheço ele. Vai saber se ele não é um assassino.
- Ei, nem eu te conheço, vai saber se você não é uma assassina.
- A, devo ser mesmo.
O recepcionista já está irritado, e louco para voltar a dormir, interrompe.
- É, pelo jeito não vai poder ficar com nenhum dos dois.
- Como não, eu cheguei primeiro.
- Nós chegamos juntos.
- Ah, é que eu tinha visto errado, não tem mais nenhum quarto, eu achei que tinha mais estava enganado, sinto muito.
Fala e volta para a salinha, deixando os dois sozinhos na recepção.

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O hotel é um mundo deles, eles criaram aquilo, eles podem cobrar 9 reais numa agua. Os hotéis se mantem com o que é vendido no frigobar. Assim como o Bobs é sustentado pelo milk shake e os aeroportos pelos pães de queijo e cafezinho.
Eles não estão te obrigando a pegar, apenas deixando ao seu alcance.

O casal está sentado de frente para o frigobar.
- e se a gente abrisse só para ver o que tem dentro.
- Não. não.
- Mas amor.
- Mas amor é uma óva. Lembra da ultima vez que abrimos o frigobar quanto deu a conta.
- Mas é só pra ver...
- Não existe só pra ver. Se vermos vamos saber o que tem dentro, sabendo o que tem dentro ficaremos com vontade, não vamos dormir e acabar assaltando a geladeira a noite.
- Nossa amor, é só um frigobar.
- Não é só um frigobar. Não diga isso. Isso não é um frigobar. É a personificação do diabo em forma de uma mini-geladeira. Nós somos Jesus no deserto e o frigobar é o diabo nos oferecendo pão.
- Mas e se...
- Não tem mas, já falei!
Ele se revolta, vai até o telefone.
- O que você esta fazendo?
- Vou dar um jeito nisso agora.
Alguém atende do outro lado.
- Alo, gostaria de mudar de quarto... não, não, não aconteceu nada... é porque eu quero um quarto sem frigobar... não tem... nenhum? (silencio) Então faz o seguinte, fecha a conta para mim.
A mulher fica sem entender nada.
- Por que você fez isso.
- Não vou deixar ser tentado de novo. Vamos para outro lugar.
- Mas você vai gastar dinheiro pagando uma nova diária.

- Não tem problema, pelo menos vou vencer o frigobar... e outra a diária vai ser mais barata do que um refrigerante de frigobar.

domingo, 25 de agosto de 2013

LADRÃO DE PRIMEIRA VIAGEM

Dois homens estão na rua. Um na frente e o outro alguns passos atrás. O de trás chama o da frente.
- Ei. Psiu.
O da frente não ouve, continua andando.
- Shiu!
Nada.
- Ei, você.
O homem que está passando olha em volta.
- Eu?
- É.
Silencio.
- você tem horas?
- onze e meia.
- Brigado.
O homem balança a cabeça e vai se retirando.
- Pera aí.
- O quê?
- Isso é um assalto. – resmunga.
- Oi?
- Um assalto.
- Meu Deus, onde?
- Aqui.
- Aqui?
- É, um assalto, meu, em você.
Mostra a arma, imponente. A arma é imponente, não o ladrão.
- O que é isso?
- Uma arma, não da pra reconhecer.
- Sério?
- Sim. Por que, não parece?
- Sei lá, mas é que...
- Mas é que nada, passa a grana.
- Você está mesmo fazer isso?
- Parece que sim né?!
- Não sei, você não parece ladrão.
- Como assim não pareço?
- Não tem cara de ladrão.
- Qual é a cara de ladrão.
- Não sei explicar, mas sei que você não tem.
- Nem você!
- Oi?
- Esquece. Da aí o dinheiro, o relógio, celular, tudo o que tiver de valor.
- ta, mas calma.
- Eu to calmo.
- Sua arma ta tremendo.
- É frio.
- Ta calor.
- porra, quem é você? Fiscal dos ladrões?
- Só estou querendo te ajudar, quantas pessoas você já assaltou.
- Varias.
Silencio, a vitima só olha para o ladrão amador.
- Ok, você é a primeira.
- Então, não pode deixar que as pessoas saibam. Tem que se impor. Vamos começar de novo.
- Ta.
- Me da uma voz de assalto.
- Oi?
- Fala isso aqui é um assalto, etc. as coisas que você falou antes.
- Isso daqui é um assalto, passa tudo, carteira, tudo.
- Ok, vamos de novo, mas agora com mais raiva e mais alto.
O ladrão se solta, então dessa vez da uma voz de assalto com um assaltante experiente.
- Perdeu meu irmão, passa tudo, isso daqui é um assalto, passa carteira, passa celular, relógio. Vai filho da puta.
A policia que está passando do outro lado, ouve tudo e ve a cena, então prende o assaltante.

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O homem de bengala, aparentemente cego, está parado na esquina, a noite, como se tivesse precisando de ajuda para atravessar a rua. Um homem que está passando, fica comovido, então vai ajudar o cego. Segura no cotovelo do cego.
- Quer ajuda?
- Quero.
O homem ajuda, quando chega do outro lado o cego saca uma arma.
- Isso é um assalto.
O homem toma um susto.
- Meu Deus, o que é isso?
- Um assalto.
- Não, quero dizer, você se fez de cego pra me assaltar?
- Não, pera aí, eu sou cego mesmo.
- Mas me assaltando?
- E o que é que tem? Você é preconceituoso? Se acha melhor que um cego.
- Não, longe de mim...
- Longe não, foi o que você disse, ficou surpreso por fazermos coisas que pessoas normais fazem, nós os cegos, também somos normais.
O homem fica passando a mão na frente do rosto do cego enquanto ele está discursando.
- Ok, desculpa, não quis parecer preconceituoso.
- Não, tudo bem, é mesmo um choque a primeira vez.
O homem se certifica mais uma vez que o assaltante realmente é cego.
- Agora chega de conversa, me da todo o dinheiro que você tem. Coloca as notas de cinquenta no meu bolso esquerdo, de cem no direito, de dez no de trás e de cinco pode ficar pra você.
Silencio.
- Não ta me ouvindo não? Quer levar um tiro?
Silencio.
O cego procura a vitima com a bengala, não encontra.
- Porra, tenho que parar de avisar que sou cego.

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Um homem acabara de sair de uma lanchonete, vira a esquina, olhando para um lado e para o outro. É abordado.
- Parado ai, isso é um assalto.
- Oi?
- Um assalto.
- Mas.
- Não tem mas, passa tudo.
- Eu sou dos seus.
- Dos meus?
- É!
- Como assim dos meus?
- Também sou assaltante.
- Não caiu nessa não. Passa tudo!
- To falando sério. Acabei de roubar uma lanchonete.
- Para com essa palhaçada.
- Juro, olha aqui minha arma.
Mostra arma.
- Guarda isso.
- Calma, só to mostrando minha ferramenta de trabalho.
- Não quero ver nada, quero o dinheiro.
- Poxa, mas você vai roubar um dos seus?
- Que um dos meus, você não é um dos meus.
- Claro que sim, eu sou ladrão, você é ladrão. Temos que nos unir.
- Eu não sou ladrão.
- Então isso não é um assalto?!
- É. mas é que eu não sou ladrão, ladrão. Eu tenho um trabalho.
- Pera aí, respeita porque isso daqui é um trabalho.
- Ta desculpa, o que eu to querendo dizer é que eu não faço isso sempre, eu só to fazendo porque estou desesperado.
- Ta então você fica desesperado e quem paga por isso sou eu?
- Mas você acabou de roubar alguém.
- Sim, mas é diferente. Eu não faço isso de onda, quando estou desesperado, de vez em quando. Faço isso sempre. Levo a sério. É o meu sustento.
- É mas...
- Não tem mas, isso é uma falta de respeito. O que o senhor faz normalmente?
- Sou formado em administração.
- Ta explicado porque está fazendo isso, se tivesse cursado outra coisa não precisava estar roubando.

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Num beco escuro.
- Isso é um assalto. Não faça movimentos bruscos.
- Ãhm.
Vira com tudo.
- Ei, falei para não fazer movimentos bruscos.
Toma um susto por causa da arma.
- Ai, cacete.
- Passa tudo o que você tem.
- Meu Deus.
- Da logo o dinheiro, celular, relógio e vamos acabar com isso.
- Não me mata.
- Não vou te matar, só quero suas coisas.
- Eu não tenho nada.
- Você também não está colaborando né.
Começa a bater nos bolsos. Tira a carteira.
- Só tem meus documentos e contas.
- Não é possivel.
O ladrão joga a carteira em cima dele.
- da o celular.
Saca um celular daqueles modelos mais simples, que não se encontra mais por ai, nem no interior. Que o ladrão não conseguiria trocar nem por um cartão telefônico.
- Que merda é essa?
- Meu celular. Ta sem crédito.
- Isso é um telefone sem fio.
- Pera aí, também não precisa ofender.
- Da o relógio.
- Não tenho relógio.
- Tenis.
- Pode pegar, mas ta rasgando aqui atrás.
- Meu Deus.
- O quê?
- Sua situação ta pior do que a minha.
- É, mas pelo menos eu não estou por ai assaltando.
- Olha, mas devia pensar seriamente em começar a fazer isso.

O ladrão fala e vai embora. Mas antes de ir da cinquenta reais para a “vitima”.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

APROVEITA

O homem está no sofá, assistindo o jogo, a mulher está passando pela porta, ele a chama.
- Amor.
Ela para na porta.
- Oi?
- Aproveita que voce ta indo na cozinha, traz uma cerveja pra mim e desce as que estão no congelador.
- Mas eu não estava indo na cozinha, to indo pro quarto. A cozinha é pra trás, eu to indo pra lá.
- A, ta indo para o quarto é?
- Sim.
Ela vai sair ele a chama novamente.
- Amor.
- Oi.
- Ao invés de ir para o quarto, vem sentar aqui comigo.
- Vem ver o jogo comigo. 
Ela vai sorridente, quando vai sentar ele interrompe a descida da bunda.
- Mas antes de sentar e pega uma cervejinha.
Ela da uma encarada nele.
- pega voce. 
- como assim pega eu?
- levanta, vai la e pega.
- Mas amor, você está de pé, pega lá.
- Não seja por isso, eu sento.
Senta.
- Pode pegar lá.
- Claudia, se eu quisesse levantar e pegar minha própria cerveja eu não tinha casado.
- quer dizer que voce so casou comigo pra pegar sua cerveja?
Silencio. Ele pensa na resposta.
- basicamente sim.
- e a família, nossos filhos?
- Nós não temos filhos
- Não desconversa.
- Mas não temos filhos!
- Ta ainda não, mas e já se tivéssemos?
- Ai não estaria pedindo pra você.
- Olha Rodolfo, saiba que eu não vou virar sua empregada.
- Nossa, eu não quero isso. Nunca pensei nisso. Ta bom, já pensei, mas foi coisa rápida, mas agora é só a cerveja amor. Uma cervejinha pra nós.
- Eu não bebo cerveja.
- Então traz duas que eu bebo a sua.
- Não vou trazer nada. Quer, levanta e pega.
- Então é assim que você trata o seu marido.
- sim.
- Ok. Deixa, eu vou pegar minha própria cerveja, espero que não aconteça nada enquanto eu estou lá, se acontecer você vai se arrepender.
Ele levanta e vai, batendo o pé. Quando ele está na cozinha a mulher grita.

- Aproveita que está ai na cozinha, traz uma coca pra mim.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

No churrasco

O churrasco já estava rolando quando ele chegou, carregando uma caixinha de cerveja, que é uma espécie de convite, passe, para entrar nos churrascos de hoje em dia. Já de cara, antes mesmo de encontrar o dono do churrasco, já avistou ela no cantinho, com um copo plástico na mão, olhando para o chato do violão, aquele tem em todo churrasco, não importa se de rico ou de pobre, ele sempre está lá com as suas musicas de quatro notas, ele carrega o violão no porta-malas do carro, para o caso de ir em algum churrasco. Ela não conversava com ninguém, apenas observava o musico. Ele correu até a cozinha e entregou o convite (a caixinha de cerveja) para a namorada do dono da festa, cumprimentou as pessoas que estavam na cozinha, preparando vinagrete, maionese, salada de tomate, foi até a churrasqueira cumprimentar reverenciar o churrasqueiro com o seu paninho no ombro, voltou pela cozinha, pegou uma das latinhas que ele mesmo trouxe e voltou para a sala. Ela continuava na mesma posição. Ela o viu só agora. Ele balança a cabeça dando um desses cumprimentos mundiais, que funciona em qualquer país, ela devolveu. Ele viu os conhecidos que estavam na sala e foi cumprimentando de uma forma que a cada um que ele falasse avançasse uma casa até a moça do cantinho. Como num vídeo game. Foi indo de oi em oi, “tudo bem e você”, “quanto tempo”, “vamos marcar alguma”, até chegar ao lado dela. Mais uma balançada de cabeça.
- Tudo bem, Paulo. – estendeu a mão.
- Tudo e você, Mari. – estendeu também.
Silencio. Só o musico entoando legião urbana, o deus dos caras com violão nos churrascos do mundo.
- Quer uma cerveja?
- Obrigado, mas estou dirigindo.
“uuuh” a torcida grita.
Silencio. Mais uma do legião.
- Sou amigo intimo do churrasqueiro, pedi pra ele reservar o melhor pedaço de picanha para nós. Sabe como é né, influencias. – arriscou uma piada e sorriu.
- Eu também sou amiga dele.
- Opa, então vamos nos dar bem, não vai sobrar carne boa para mais ninguém.
- Mas eu sou vegetariana.
“uuuh”. Mais uma dessa e ele está fora.
Silencio. O musico começa outra musica, dessa vez não é do Legião. É do Rei.
- Essa musica vai para minha gata.
Fala e da uma piscada para a moça, do cantinho, com o copo plástico na mão. Ela só podia ser alguma coisa dele mesmo para aguentar um pout-pourri do Legião.
Ele só olha para ela e sai. Pensando que deve urgentemente aprender a tocar violão.

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Um garoto está perto da churrasqueira, um senhor mais velho se aproxima.
- Cade o churrasqueiro?
- Sou eu.
- Oi?
- Eu que vou assar, só estou esperando o álcool pra acender o fogo.
- você?
- Sim.
- Mas você tem quantos anos?
- 21.
- E vai assar a carne.
O garoto faz que sim com a cabeça.
- Amor.
- Oi?
- Vamos embora.
- Mas por que, acabamos de chegar.
- O churrasqueiro tem 21 anos.

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Se a santa ceia fosse um churrasco: Jesus teria dividido o pão de alho e a maionese, teria transformado agua em cerveja, os doze apóstolos tocariam pagode, teria sido citado mais gente, já que churrasco você chama doze vem 30. E teria ao menos um cachorro na história.

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No churrasco todo mundo tem uma técnica para acender o fogo da churrasqueira, pena que nenhuma leva menos do que meia hora. Segundo especialistas existem mais de 500 tecnicas para acender o fogo contabilizadas até agora, só no Brasil.

Tudo estava pronto para iniciar o churrasco, a cerveja já estava gelada, a vinagrete temperada, a maionese (de ovo cru, a mais tradicional, aquela com salmonela) já estava na geladeira. Agora só faltava acender o fogo da churrasqueira.
- Deixa que eu acendo.
- Não, não, não.
- O quê?
- somos seus convidados, é seu primeiro churrasco, não precisa passar por isso.
- Isso o quê?
- passar a vergonha de não conseguir acender o fogo da churrasqueira.
- Mas...
- Não tem mas.
- Deixa que a gente faz isso, não quero ver você desesperado, abanando com uma tampa na mão.
- Deus o livre.
- Que isso pessoal, eu sou o dono do churrasco.
- Shi! – coloca o dedo na boca do anfitrião – deixa que eu acendo. Clara, pega um pão amanhecido e óleo por favor.
- Pão e óleo?
- Não conhecem essa técnica?
- Não.
- Ufa, sorte de você que eu estou aqui.
Vai com o pão e óleo na churrasqueira. Tasca fogo e nada. Mais uma vez e nada.
- Clara tem certeza que isso é pão amanhecido? Só da certo com pão amanhecido. Pão novo não rola.
- Pedro, sai dai, deixa que eu boto fogo. Vou usar a técnica dos sete palitos.
- Sete palitos? – perguntam os três amigos em uníssono.
- Isso mesmo, é uma técnica de familia, faz o fogo pegar uniforme, transforma a carne. Deixa acem com gosto de mignon, tudo graças aos sete fósforos.
- Caramba.
- Clara pega a caixa de fosforo.
- O fogão é elétrico. Tem isqueiro, serve? – grita a clara lá da cozinha.
- Não, tem que ser fosforo.
- não tem. – responde clara.
- Nem pra acender as velinhas.
- Eles são ateus.
Silencio.
- Não tem problema Marlon, deixa que eu acendo. – vem o anfitrião amparar o amigo.
- Não, não. ainda falta eu tentar. Deixei os amadores se manifestar mostrar como eu sou humilde, sou tão bom que chego a ser humilde.
Os três amigos balançam a cabeça.
- Esse fogo já era pra ter sido aceso a sete dias atrás, se era pra ser um churrasco descente. Agora vou ter que tirar o atraso, só vou fazer isso porque é o seu primeiro churrasco, casa nova, ta todo mundo feliz, então não quero isso acabe por culpa de vocês. Agora o negocio é o seguinte, vou precisar de maçarico, tronco de imbuia seco, cortado em retângulos equiláteros.
- Oi?
- Preciso disso para acender o fogo e arrumar a sua cagada.
- Não tenho nada disso.
- Desculpa, então não vou poder ajudar.
Nesse momento, vem da cozinha, a mulher do dono do churrasco.
- Já tem alguma coisa ai pras meninas beliscar lá dentro?
Olha para a churrasqueira está vazia e apagada.
- O que aconteceu?
- Nós falhamos, não conseguimos acender o fogo.
- Se você esperar até amanhã cedo o pão amanhecer eu resolvo isso.
Ela vai até a churrasqueira e liga. É uma churrasqueira elétrica. Nem fala nada e sai balançando a cabeça.

- Era por isso que eu insisti para deixarem que eu acendesse. 

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Se manifesta

O rapaz está na sala, sentado preguiçosamente no sofá, o amigo entra pela porta todo empolgado, carregando um cartaz escrito #CHEGA e com a cara pintada.
- Ué, você não vai à manifestação?
- Manifestação?
- É, a que vai rolar, não viu no teu face o convite.
- Nem entrei no face.
- Então, vai rolar uma manifestação.
- Quem vai?
- Todo mundo.
- Todo mundo quem?
- Todo mundo, todo mundo, a galera, mudar o Brasil.
- caramba, mas vão protestar pelo o quê?
- Não sei, vamos protestar. Vamos?
- Será?
- Vamos lá. Acho que é pelo preço da gasolina, olha quanto tá, vamos para a rua.
 - Não sei...
- Vamos mostrar que nós temos voz.
- Não sei, to com a garganta meio arranhando.
O que está em pé segurando o cartaz para olhando para o amigo que está estirado no sofá.
- E outra, se você for parar pra pensar, a gasolina não ta tão cara assim. Antigamente era barato porque os carros gastavam mais, hoje em dia são econômicos, então faz sentido cobrarem mais.
- É. Se for parar pra pensar, faz sentido.
- Lógico.
- Mas então vamos lá protestar por outra coisa.
- Outra coisa?
- É, outra coisa.
- Outra coisa tipo?
- Sei lá, vamos protestar pelo preço do pão. Viu que absurdo. Antigamente com um real comprava-se 10 pães, hoje não compra nem 4.
- Não, mas não é bem assim, é que as famílias diminuíram, os pães aumentaram, acho que não é pra tanto. E outra, tem visto o tamanho do pão? Tão cada vez maior. Um vale por três da época, ou seja, um real dão quase doze pães.
- Sim.
- E o preço da passagem, isso não tem o que falar, subiu muito.
- É, isso sim.
- Então vamos.
- Quanto ta o preço da passagem?
- Pra falar a verdade eu não sei. Vamos perguntar para sua empregada.
- Ela já foi, dispensei ela mais cedo, ia na manifestação.
- Droga.
Silencio.
- E a cesta básica.
- O que é que tem?
- Ta bem cara.
- Ah, mas vem mais coisas, varias opções, tem bolacha recheada, não é tão básica assim, é só cesta.
- É, bolacha recheada é cara.
- Sim.
- Impostos.
- Obrigatório.
- Pedágio.
- As estradas estão boas.
Silencio. O amigo manifestante abaixa a placa, desanimado. O do sofá, tira os olhos da televisão pela primeira vez.
- O que houve?
- Pensando bem acho que não vou.
- Mas você não tinha confirmado?
- Tinha, mas pensando bem, acho que não vou não. Não tenho um motivo, motivo sério para protestar.
Ele balança a cabeça e vai saindo lentamente. O amigo que está no sofá balança a cabeça.
- Por causa de pessoas que pensam como você que o nosso país não vai para frente.

Fala e volta a assistir televisão.